A existencia congenita do sentimento religioso. A utilidade da sua acção disciplinadora. Vantagens d’este elemento na educação correcional. A opinião dos criminalistas italianos e d’um notavel principe da Egreja.
A religião é o problema por excellencia dos tempos modernos.
JOHN TYNDALL.
Si la religion n’est pas le fondement de la morale, elle est le fondement de son efficacité pratique.
PAUL JANET.
A crise que está atravessando a moral e o sentimento religioso é um problema grave. O nosso seculo é a epoca de transição entre um passado insufficiente e um futuro prenhe de audaciosos acontecimentos, que os espiritos circumspectos e que veem largo, não ousam encarar sem um grande espanto ou um justo receio.
Os revolucionarios e os innovadores não se inquietam, porque esperam ver um dia o genio do homem sair victorioso do combate titanico, que a sciencia travou contra as forças da natureza, escondidas ainda na intelligencia humana. Mas o conteudo do decimetro cubico da nossa massa encephalica fica absolutamente satisfeito com a sciencia positiva? A religião é uma fórma transitoria da evolução humana como pretendem os positivistas? É uma invenção dos sacerdotes como queriam os philosophos do seculo passado? Tem origem n’um sentimento passageiro, como dizia o poeta romano: primus in orbe deos fecit timor?
Ao estudarmos as religiões na sua continuidade historica, na filiação dos cultos, no encadeamento logico das concepções, vemos que o passado é a génese inexgotavel do futuro. Ainda que a civilisação verta sobre a alma da humanidade muitos gozos e beneficios a razão achal-os-ha impotentes para a satisfazer. A religião é, na vida humana sensivel, comtemporanea da dôr e durará tanto como ella. O seu objecto ficará sempre como sublime aspiração para um ideal que não abranje só este mundo, e que como uma columna de fogo illuminará nas crises dolorosas a senda mysteriosa da consciencia humana. O homem dirige-se pelas idéas verdadeiras ou falsas, mas dirige-se e consola-se tambem pelo sentimento. Póde affirmar-se que são principalmente os sentimentos os moveis da nossa actividade e que a nossa vida moral, no que ella tem de externo á lei do dever, dimana sempre d’um sentimento ou d’uma emoção a procurar ou a evitar. É possivel que n’um futuro longinquo, a sciencia acabe sobre a terra por substituir completamente o cerebro ao coração, o raciocinio ao sentimento, tornando a alma humana inane ao aguilhão do desejo e indifferente ás emoções da sensibilidade. No momento evolucionario em que não houver nem amor, nem dedicação, nem piedade, nem ternura, nem sinceridade, n’esse dia a vida humana, tal como a concebemos, terá desapparecido n’um horror de tristeza, na profundissima treva cantada por Byron. As puras abstracções da sciencia não podem dirigir, nem satisfazer a humana aspiração. Nenhuma realidade contingente póde encher a vida immensa da nossa alma.
Penetrando pela analyse nos factos passados da humanidade, reconhecemos em grande parte, que muitas das suas concepções mais consoladoras e mais queridas, com as quaes ella explicava a natureza das cousas, cairam á luz das investigações severas da sciencia como phantasmagorias enganosas. Aos velhos deuses, ainda que invejosos e crueis, susceptiveis ao menos de misericordia, succedeu a fatalidade inexoravel da lei, que é surda á supplica do crente e inaccessivel á esperança do afflicto. Alguns espiritos demasiado positivos promettem á humanidade pela sciencia um futuro reinado de Astrêa, quando em verdade nunca durante o imperio incontestado dos deuses o homem foi tão escravo como é hoje em frente das leis desapiedadas e brutaes da natureza. São todas as religiões positivas uma illusão, uma chimera? Supponhamos, sem o conceder todavia, que sim. Mas não ha na sciencia muita hypothese gratuita, muita theoria enganosa? Eu prefiro a crença na doutrina que tem servido de doce abrigo e de suave conforto á humanidade desditosa, á explicação hypothetica fornecida pela dura realidade da sciencia, mas que rouba ao coração humano o sentimento augusto da esperança, que é mais verdadeiro que o da propria felicidade.
Não póde negar-se que todo o sentimento religioso tem um fundo de verdade. É-nos desconhecida a natureza intima, o principio que inspira essas manifestações, mas essa ignorancia existe a proposito de muitos phenomenos scientificos. Por ventura conhecemos, por exemplo, a natureza intima da electricidade?