Se o sentimento religioso tem sempre um fundo de verdade, resulta até perante a sciencia que a religião é evidentemente util. A especulação religiosa foi o primeiro factor intellectual que elevou a alma humana acima da animalidade «sendo, como diz Littré, necessario e indispensavel um systema philosophico ou conjuncto de idéas por meio das quaes tudo seja explicado; na ausencia do verdadeiro que estava ainda na sombra de um longinquo futuro, os homens crearam-no hypothetico, mas não arbitrario; transitorio, mas conforme ao estado intellectual do momento. Estes systemas foram a theologia e a metaphysica.»

Esta affirmação de que o estado theologico é transitorio é o reflexo da falsa lei comteana dos tres estados. Não ha tres methodos radicalmente oppostos de philosophar, o methodo é essencialmente o mesmo, a integração das causas é que progressivamente converte principios explicativos menos geraes n’uma lei universal. Escreveu Diderot na sua Carta sobre os cegos para uso dos que vêem. «Se a natureza nos offerece um nó difficil de desfazer, deixemol-o pelo que vale e não empreguemos a cortal-o a mão de um ser que em seguida se torna para nós um novo nó mais indissoluvel que o primeiro. Perguntaes a um indio como está o mundo suspenso nos ares; responder-vos-ha que descança no dorso de um elephante; e o elephante sobre que assenta? Sobre uma tartaruga. E esta quem a sustenta?... O indio causa-vos dó!»

A existencia do homem, diz J. Stuart Mill, apresenta-se primeiro envolta no mysterio: a estreita região da nossa experiencia é como uma pequena ilha perdida n’um mar immenso que eleva os nossos sentimentos ao mesmo tempo que estimula a nossa imaginação pela sua immensidade e pela sua obscuridade.

O que obscure mais o mysterio, é que o dominio da nossa existencia terrestre não é sómente uma ilha no espaço infinito, mas tambem no tempo infinito. O passado e o futuro furtam-se egualmente ás nossas vistas: não sabemos nem a origem, nem o fim de nenhuma cousa existente.[58] A religião e a poesia pelas suas concepções idealmente bellas e grandiosas é que mitigam em parte a sêde da nossa alma. A influencia da religião melhora e ennobrece no individuo a natureza humana. As religiões da humanidade civilisada, incluiram nos seus preceitos os melhores principios de moral, que a razão e a bondade poderam crear com elementos tirados quer da philosophia, quer da historia heroica, quer d’outra parte.[59]

A religião na sua pureza ideal é o refugio das almas superiormente delicadas, e nas suas fórmas regularmente cultuaes e dogmaticas é a philosophia das massas, cujo influxo pesa salutarmente no seu espirito pelo amor ou pelo receio. Não desprezemos nada do que póde melhorar-nos, porque a nossa felicidade é a hypothese, emquanto o infortunio é a realidade.

Não temos a certeza positiva de ser immortaes, mas temos a consciencia de ser feitos para a immortalidade. Nutrimos o horror pelo nada e o amor pela idéa de viver eternamente. Quando offerecemos o nosso coração, quando dedicamos o nosso affecto, é para sempre, cada uma das nossas faculdades aspira a fins que não attingem só este mundo. Esta vida é preludio d’uma tarefa immensa que tem por guia a visão do infinito. A razão almeja constantemente por uma verdade absoluta, a vontade aspira a uma virtude perfeita. A natureza indestructivel da alma deve ser acceite por todos os que admittem a permanencia de força, substancia que não póde cessar. Mas esta immortalidade é irrisoria porque não salva a bondade do nosso esforço, nem assegura o desenvolvimento da nossa perfectibilidade. Viver e mudar são synonimos, todavia viver é triumphar da mudança, reconhecendo a personalidade. O homem deve ser immortal, porque tudo é immortal e indestructivel, desde o imperceptivel verme, desde o grão de areia, desde a gota d’agua até ao astro o mais colossal e o mais radiante. Mas a vida na immortalidade humana, deve recordar a personalidade. A religião e a poesia são as duas fórmas mais elevadas que reveste esta modalidade do nosso ser, por isso o vago sentimento poetico e o indefinido sentimento religioso serão eternos. O caminhar da civilisação póde mudar a corrente do sentimento religioso, mas jámais poderá esgotar-lhe a nascente.[60] A religião é uma necessidade do coração e uma necessidade racional.

Magistratura civil e magistratura espiritual na sua funcção sociologica completam-se mutuamente. O juiz pune, o professor e o sacerdote podem emendar o delinquente. Diz S. João Chrysostomo, fallando dos magistrados: «quanto a vós se deixaes o criminoso impune contribuis para que elle se torne peior; se o condemnaes ao supplicio, não conseguis emendal-o. Eu não o deixo ir impune, mas nem por isso o castiguei ao vosso modo; procuro-lhe a penitencia que me parece justa e assim faço com que elle por si mesmo se corrija do mal que praticou.» É innegavel que o sentimento religioso é uma mordaça para o delinquente. Se em certas comarcas e em dadas regiões, apezar da influencia do sentimento religioso o crime existe em grande escala, qual não seria a progressão criminosa se a crença religiosa não existisse? Attribuir á religião n’este caso o augmento da estatistica do crime, seria o mesmo que attribuir á medecina a morte pelo cholera, onde elle é endemico.

Ha entre a crença religiosa e a lei do dever uma ligação assás estreita, intima; o imperio da primeira avigora e fortalece a segunda. Não queremos com isto dizer que o principio da obrigação moral não tenha um valor proprio, como todas as idéas racionaes, independentemente da idéa religiosa, mas como é inoculada geralmente em nome do sentimento religioso, é pela sua acção, como diz Javary, que se tem espalhado e que se mantem, em grande parte, na sociedade. Nos individuos ignorantes e de paixões brutaes a concepção abstracta da lei moral, separada da religião, é incapaz de exercer praticamente o seu imperio. Não ha a possibilidade de fazer philosophos de todos os homens, por isso é mister que os desherdados da luz recebam na sua alma a moral pela religião e a metaphysica pela theogonia. A religião é, como pensa Kant, não o fundamento da moral, é antes a moral que nos conduz á religião; a philosophia aprecia a alteza e o valor das religiões pela moral que ellas pregam. Qualquer organisação religiosa, por pouco que ella valha, serve sempre de disciplina ás consciencias e tem a vantagem d’exercer uma acção reguladora na ordem social. Já Vico disse que sob a influencia da religião se formaram as mais illustres sociedades do mundo, o atheismo não fez nada.

De vez em quando o luar da historia humana apparece tragicamente avivado pela revelação d’um grande crime. O psychologo e o jurista estudam o delinquente e o delicto. Esta ordem de phenomenos ainda está n’um periodo de discussão e de elaboração. Ha muito a esperar da educação moral e religiosa no seio da familia, ministrada com carinhosa intensidade e dirigida por elevados preceitos confirmados por bellos exemplos. Regeitemos por isso as exaggerações pessimistas da parte da escola anthropologica italiana, que crê toda a educação esteril para melhorar o criminoso.

A este respeito escreve Garofalo em defeza da educação religiosa: