«Sem duvida as emoções religiosas tem grande influencia quando tem sido excitadas desde os primeiros annos. Deixam sempre vestigios que embora enfraquecidos pelo tempo, não desapparecem nunca, até no abysmo da fé. A impressão dos mysterios religiosos sobre a imaginação é de tal modo viva que as regras de procedimento impostas em nome da divindade podem tornar-se instinctivas, porque,—como disse Darwin,—«uma crença inculcada constantemente durante os primeiros annos da vida quando o cerebro é mais impressionavel, parece quasi adquirir a natureza d’um instincto, é a que se produz independentemente da razão.»[61] A influencia d’um codigo de moral—accrescenta Spencer—defende antes das emoções provocadas por seus imperativos, que do sentimento de utilidade em lhe obedecer. Os sentimentos inspirados na infancia pelo espectaculo da sancção social e religiosa dos principios moraes, exercem sobre o procedimento uma influencia muito maior ainda que a idéa do bem-estar, que se obtém pela obediencia aos principios d’este genero. Quando os sentimentos, que o espectaculo d’estas sancções faz nascer, chegam a faltar, a fé utilitaria não basta ordinariamente para levar á obediencia.—Até nas raças melhor educadas,—accrescenta elle, entre os homens superiores, nos quaes as sympathias, tornadas organicas, são a causa de que elles se conformem espontaneamente com os preceitos altruistas, a sancção social, derivada em parte da sancção religiosa, adquire uma certa importancia sobre a influencia d’estes preceitos; pois, ella a tem muito grande sobre as acções das pessoas d’um espirito menos elevado.

«O mesmo auctor reconhece uma influencia perniciosa no preconceito irreligioso ou anti-theologico.—Diz áquelles que creem que a sociedade póde conformar-se em tudo com os principios da moral: «Como se poderia avaliar a quantidade de espirito de direcção necessaria, sem regras recebidas hereditariamente e que constituem auctoridade, para obrigar os homens a comprehender porque, sendo dada a natureza das cousas, seja pernicioso um certo modo de obrar e aproveitavel outro; para as forçar a ver além do resultado immediato, e a discernir claramente os resultados indirectos e affastados, taes como se produzem sobre elles mesmos, sobre os outros, e sobre a sociedade?

«Não é pois duvidoso, para os positivistas, que a religião seja uma das mais activas entre as forças da educação. Mas para isto são necessarias duas condições,—a primeira quando se trata d’uma creança,—a segunda, que o ensino da moral seja o verdadeiro alvo do ensino religioso, o que desgraçadamente não acontece quasi nunca em muitos paizes catholicos, onde um clero ignorante, sobretudo nas parochias ruraes, se occupa geralmente de praticas completamente vasias de significação para a direcção moral, e cujo fim visa a assegurar a mais inteira obediencia dos fieis, que entretanto desamparam as paginas sublimes do Evangelho. Ha ainda uma outra cousa a notar: é que o poder da religião sobre a moralidade individual parece deter-se precisamente nos casos mais graves, isto é, quando elle encontra inclinações criminosas. Nada mais natural. Com effeito, se o ensino para tornar-se util, deve ser acompanhado da emoção, como se póde esperar que esta emoção seja excitada nos homens, que, por um defeito de organisação physica tem uma sensibilidade moral muito menor que a normal? E como se póde pensar então que elles cheguem nunca á pura idealidade da religião?

«Que importa isso, dir-nos-hão. O temor do castigo na outra vida será sempre um freio assaz poderoso para bem dos individuos que não teem podido elevar-se ao verdadeiro ideal religioso. Isto póde ser verdadeiro para homens d’um espirito pratico, tranquillo, e calculador, não seguramente para aquelles que tem um caracter criminoso, porque a imprudencia, a imprevidencia, a leviandade, distinguem sobre tudo este caracter. Se, em todas as occasiões, para a satisfação immediata, de suas paixões, elles não olham para o dia immediato, como se ha de esperar d’elles que olhem para o fim da vida? Outros delinquentes formam esta classe que se chama dos impulsivos. Elles obram por impulso do seu temperamento colerico ou nevropathico, ou pelo do alcoolismo; é pois pouco provavel que no momento de offender as sancções religiosas lhe venham ao espirito. Outros emfim encontram-se na condição de névrosthenia moral que os torna impotentes para resistir ás influencias do meio: pode-se porventura imaginar que a sua instrucção seja sufficiente para lhe dar iniciativa e energia?

«É assim que o estudo experimental do criminoso destroe muitas illusões, e que confirma a conclusão que já demos, fallando da educação em geral, isto é, que se um caracter póde ser por ella aperfeiçoado, é muito duvidoso que possa jámais supprir uma lacuna da organisação psychica, tal como a ausencia dos sentimentos altruistas. Emfim, é verdade que esta especie de religião, que está ao alcance do maior numero, ameaça espantosamente o criminoso? Não, porque se lhe tem fallado ao mesmo tempo da misericordia Divina, e elle crê que um acto de arrependimento em qualquer tempo e logar, será uma reparação sufficiente para uma vida passada inteiramente no vicio. É assim que se póde explicar o facto muitas vezes verificado em ladrões e assassinos, muito devotos da Virgem e dos Santos. Um caso muito differente póde explicar-se do mesmo modo: senhoras muito crentes podem passar toda a sua vida no adulterio, e, na egreja, chorarem ajoelhadas ao pé da cruz. Porque a luxuria é um peccado mortal, como o odio e a cholera, mas a benção d’um padre póde egualmente absolvel-os a todos. Parece-me ouvir responder; é que estas pessoas não teem o verdadeiro sentimento religioso; é que a sua religião não é senão superstição! Mas póde a religião do maior numero ser outra cousa? Nas pessoas vulgares, em todas as religiões, encontra-se a idéa do anthropomorphismo de Deus. É assim como se tem muito bem notado—«que o homem brando e honrado adora um Deus de amor e de perdão; e que o homem perverso e immoral fórma um Deus cruel e odiento.»[62] E se o verdadeiro sentimento religioso é cousa de tal modo rara que bem poucos espiritos nobres podem pretendel-o, será temerario dizer que estes mesmos espiritos não teriam tido necessidade d’elle para não commetter crimes; que, embora elles não tivessem sido crentes, teriam sido da mesma fórma pessoas de bem? Apezar de tudo, é preciso admittir que, nos mesmos limites em que a educação póde ser operante, a religião é um seu auxiliar, porque ella póde desenvolver bons principios e reforçar caracteres fracos. Um governo esclarecido deveria, pois, fornecer esta força moralisadora, ou pelo menos não lhe crear obstaculos. Em quanto ao mais, o que póde fazer não é grande coisa. Em um paiz sceptico todos os seus esforços seriam inuteis, e no seio de uma nação animada da fé dispensa-se a sua approvação. Tem-se visto religiões do Estado decairem e morrerem; o christianismo invadir irresistivelmente o Imperio romano, da mesma fórma que o budhismo a Asia Oriental. Em nossos tempos um governo só tem a religião que encontra na nação. Da mesma fórma que no seio d’uma familia todo o ensino será nullo sobre o coração dos filhos se seus pais não lhes patenteiam a todos os momentos a sua inteira submissão a estes mesmos preceitos, o Estado não poderá moralisar nunca senão pelo exemplo, e o melhor exemplo que pode dar é a justiça a mais severa, a mais imparcial, a mais facil de obter.»[63]

Sobre o mesmo assumpto escreve Tarde:

«Limitemo-nos á estatistica criminal e concluamos mais esta vez ainda que o mal crescente, indicio aliás de um melhoramento occulto, que ella expõe aos nossos olhos, não se póde imputar nem á policia, nem á justiça, nem á civilisação, nem tão pouco á lei penal, mas antes quem sabe, ao retrocesso dos instinctos caritativos e á exaltação das paixões revolucionarias. Sem embargo, desconheceremos nós a acção favoravel, ou não favoravel á criminalidade, de cousas taes como a instrucção, o trabalho, a riqueza e a indifferença nas crenças religiosas? Indiquemos em poucas palavras qual a resposta que temos a dar a estas interrogações. Pelo que respeita á ultima, é fóra de duvida que o medo do inferno, demos-lhe o seu nome, por mais que tenha enfraquecido e ainda que venha até a extinguir-se inteiramente, ao menos nos adultos, assim como o desejo do ceo e o amor de Deus, as regras e os habitos moraes de nossos paes, bem como de nossa infancia, para cuja formação contribuiram aquelles sentimentos, nem por isso subsistem ou subsistirão menos, mas cada dia mais abalados, mais incapazes de resistir aos embates das tentações. Para que o havemos de dissimular, o diabo tem talvez contribuido tanto como o carrasco para formar o coração dos europeus passados e presentes inclusive os d’aquelles a quem a pena de morte e as superstições mais revoltam. Christã ou não, a França permanecerá ainda muito tempo christianisada, do mesmo modo que bonapartista ou não, desde a idade organica do Consulado, está ella, queira ou não queira bonapartisada e até á medulla dos ossos. Todavia esta sobrevivencia da moral religiosa aos dogmas, como a das instituições a seus principios, só tem um tempo? e onde irão as gerações vindouras beber a sua moralidade quando estiver esgotada a antiga fonte? N’outros termos, para luctar contra as tendencias destruidoras, que sentimentos fecundos differentes dos precedentes nutrirão essas gerações, ou se deverá fortificar n’ellas? Porque, são sentimentos, e diremos melhor principios, isto é restos de convicções estaveis, inconscientes, definitivas, e não ideias, isto é convicções em via de se formarem e prestes a descerem do espirito ao coração e do coração ao caracter, o que se trata de suscitar aqui.»

Sobre o mesmo assumpto Dupanloup, o egregio prelado faz as seguintes considerações:[64]

«Todos sabem quanto a Instrucção e a Disciplina devem á Religião, e bem poucos deixarão de ter experimentado quanto é profunda a influencia da Religião e da virtude sobre a Educação intellectual. O coração mais puro purifica o espirito, torna-o mais sensivel ás impressões do bello, mais docil aos ensinamentos do verdadeiro e fal-o saborear com vivacidade o doce e nobre prazer de escutar a rasão.

Sob os auspicios da Religião, a verdade penetra na intelligencia, não como uma secca theoria que apenas conquista uma especie de adhesão passiva, mas como que alguma cousa de vivente, de substancial, que fecunda o espirito e o eleva e por elle chega á alma para a vevificar toda inteira.