Oh! sem duvida é muito mais facil de exercer a Disciplina militar, a Disciplina de mão armada: será sempre mais facil commandar corpos que almas. Dispõe-se da força, os corpos humilham-se, mas as almas resistem; ou se se humilham, é porque foram embrutecidas por uma obediencia servil.

Que notavel differença na Educação christã! Para esta ha mister uma arte profunda; e é d’esta arte que se disse: Ars artium, regimen animarum.

Ás almas se applicam todos os esforços da direcção christã: a ordem moral eis o fim a que se pretende chegar. A ordem material tem sua importancia, não ha duvida, mas estabelece-se naturalmente, por uma simples consequencia e como um reflexo exterior da ordem moral; em quanto que n’essas outras escolas, onde se ostentam pomposamente os rigores de uma inflexivel disciplina, muitas vezes não ha no intimo do seu organismo, senão desordem e anarchia. Tudo quanto ahi se quer é que essa anarchia e essa desordem não constem cá fóra. Que, depois d’isso, as creanças ignorem o que é a virtude e a felicidade, pouco importa! Que não haja Educação para o coração, para a consciencia, tambem pouco importa! Ah! eu não conto aqui, senão o que todos sabem e foi com a auctoridade de mais de um exemplo que se disseram estas palavras bem verdadeiras; A mais severa Disciplina pode esconder vicios medonhos.[65]

Desgraçados dos paes que n’este ponto, se descuidam, elles chorarão um dia amargamente! Desgraçado do paiz onde a Educação publica chegou a este ponto: serão ahi raros os bons cidadãos!

As sagradas Escripturas disseram uma bella e profunda verdade quando definiram a Disciplina—a guarda das leis, Disciplina, costodia legum.

É com effeito o que deve ser e o que nós temos visto. Mas como póde a disciplina cumprir dignamente esta grande e augusta missão? É inspirando o respeito e o amor d’essas mesmas leis que são confiadas á sua guarda. Se ella é toda material, só ensina o respeito da força, isto é, o medo servil que fana as almas sem lhes tirar a tendencia para a revolta; se é religioso e moral, ensinará a respeitar o principio da auctoridade e a lei que é a expressão das mesmas; submetterá as almas ao imperio d’essas santas noções sobre as quaes repousa a ordem social, quer se trate da grande sociedade humana, que é a patria, quer se trate d’essa outra sociedade mais circumscripta e mais humilde, mas depositaria dos destinos da primeira, do collegio: ahi onde se faz a aprendizagem das virtudes ou dos vicios, pelos quaes serão um dia rebustecida ou perturbada, a paz e a prosperidade publicas.

Perdoem ter-me deixado arrastar pela importancia d’esta questão. Limitar-me-hei, pois, a repetil-o: é necessario na Educação que a Disciplina não seja observada á força, mas respeitada e amada de coração. De outro modo, as almas soffrem e a Educação não passa de uma obra de violencia, algumas vezes cheia de horror.

Mas, se nada póde egualar a influencia da Religião sobre a disciplina, ao mesmo tempo que sobre os estudos e o desenvolvimento natural do espirito; sobre o caracter e os defeitos da creança, e sobre os destinos da sua vida inteira, a Religião, do seu lado, reclama o concurso dos dois outros grandes meios d’Educação.

Sem a Instrucção e sem a Disciplina, não formaria a Religião homens dignos d’ella.

A Religião quer ser esclarecida: gosta dos caracteres firmes e rectos: espiritos imbecis ou caracteres abatidos e indolentes sómente seriam bons para a deshonrar.