Ah! quiz cantar o braço omnipotente Que por nós trabalhava a cada instante: E a terra, o mar, e quanto vive e sente, Apontou para Ti, astro brilhante!

Possam teus raios que nos ceus se expandem Ricos da gloria e cheios d'alegria, Fazer com que do peito meu debandem As sombras da tristeza que trazia,

E ouve-me um canto alegre como o côro Das aves quando, envolto em magestade, Tu transpões do oriente as portas d'ouro E abençoas dos ceus a Humanidade!

Oh astro, coração tres vezes santo, De cujo seio foi por Deus emmerso O movimento e a vida e tudo quanto Forma hoje a harmonia do Universo!

Ouvi louvar-te, num concerto vario, Montanhas, mares, flôres e arvoredos, Que do meu peito, como d'um sacrario, Confiaram seus intimos segredos!

Louvam-te as aves; louvam-te as creanças, E os velhos que não teem fogo nos lares, Buscando a doce luz que tu lhes lanças, Como a imagem de Deus junto aos altares!

Louva-te, oh Sol! a terra a quem quizeste Por tua esposa, na epocha sombria, Em que de crepe a abbobada se veste, Lacrimosa chorando noite e dia;

E os jubilios e os mil festões de gala Com que cingio de noiva delirante A casta fronte, quando a enamoral-a Sentiu de novo o teu olhar brilhante!

Oh Sol! oh Sol! a minha lingua é pobre Para cantar-te em verso o quanto vales Perante as maravilhas que descobre A vista humana por montanha e vales!...

Desde o negro carvão que o fogo atêa Ao cédro altivo que no mundo avulta; Desde o meu sangue á luz da minha idêa: Por tudo existe a tua essencia occulta!...