Tu que és do Sol a esposa immaculada, Que entre perfumes, canticos e flôres, Passas no azul dos ceus, virgem coroada Com o candido mimbo dos amores:
Como escuta piedosa a mãe seu filho, E d'elle acceita o mais pequeno objecto, Ouve a harpa d'esta alma onde dedilho Por ti um canto d'entranhado affecto!
Um canto aonde a propria naturesa, Em cujo seio o astro meu se inspira, Reflecte o seu conjuncto de belleza, Unindo a eterna vóz á vóz da lyra!
O mar que te circunda a fronte bella, Que espelha ao longe a luz que o Sol t'envia; Te muda a negra crosta em linda estrella, E dá-te um canto cheio de harmonia;
E o subtil pingo d'agua onde escondes-te D'inquietos vibriões um mar profundo, Tão vasto como a abbobada celeste, Contendo a tantos como os soes do mundo;
A arvore a prumo erguida ao firmamento, Posta por Deus na paz a mais completa, Quando, ao passar-lhe o espirito do vento, Descanta como a harpa d'um propheta:
E a semente da flôr, qual grão d'areia, Que, inerte, fria, escura e pequenina, Contém as pompas da divina ideia: O lyrio branco ou a rosa purpurina;
O leão, implacavel creatura, Quando a victima arrasta inda arquejante Tinto de sangue, offerta-a com ternura Á leôa parida, sua amante:
E a indefeza timida ovelhinha, Entre as flôres gentis do verde prado. Meiga balando á mãe que se avesinha, Por dar-lhe o leite doce e perfumado;
A aguia quando solta a envergadura Das largas azas pelo azul do espaço, E, em marcha triumphal, a enorme altura Passa nos céus sem lucta, e sem cançaço;