E a crysalida que abre á luz do dia Do involucro o sedifero thesouro, E, nos enlevos d'intima alegria, Expande á luz do Sol as azas d'ouro:

Quanto, emfim, é teu filho a mim me pede, Que em nome d'elles eu te louve e cante, Suppondo achar n'esta alma o centro, a séde, O altar, de quanto o Sol lhe põe diante!...

Oh minha mãe! a magua me entristece De que Deus, cujas dadivas divide Por tanta gente, a mim me não cedesse Para cantar-te a harpa de David!...

Dos proprios paes e estranhos mal tratado, Fui pôr-me á tua sombra hospitaleira, E em teu seio de mãe abençoado Achei d'esta alma a patria verdadeira!

Não sei como surgio o homem na terra!... Não sei onde os meus sonhos se dirigem...; Mas quanto bello e bom minha alma encerra, Em ti encontra a perenal origem!...

Quer sobre os cumes dos altivos montes, Quer á sombra dos vales verdejantes; Quer ouça a meiga vóz das claras fontes, Quer as furias das ondas espumantes:

Por onde quer que eu vá, minha alma sente Cercal'a tão solicito cuidado, Que quanto me concebe um dia a mente, Encontra sempre em ti o objecto amado!...

Por isso, embora eu viva como o paria Junto ás margens do Ganges crystalino, Levando vida incerta, rude e varia, Entre os baldões d'um impobro destino:

Vivo entre flôres, musicas e festas, Tendo por luz suprema o pensamento; Por palacios as múrmuras florestas, E alampadas os soes no firmamento!

Por orchestras as musicas plangentes Que geme ao longe o mar no captiveiro, Com os concertos das aves innocentes, E os murmurios do limpido ribeiro!