Uma das sallas da camara da Infanta, abrindo sobre o rio por duas grandes janellas abertas de par em par.
Forram-na brocados de seda branca e oiro palido; veludos doirados cobrem os coxins. Na parede da esquerda, ao centro, sobre um estrado, uma cadeira de espaldar alto, coberta de pano de oiro, tendo por fundo uma tapeçaria armoriada e, a encimá-la, um docel de lhama. Mesa rendilhada de marfim e embutidos d'oiro, ao centro, sobre uma alcatifa oriental.
Á direita e á esquerda portas cobertas por damascos brancos, brazonados.
É uma salla de luar em que o outomno deixou cair as folhas...
Aias trabalham afanosas, em silencio, dobrando grandes peças de brocado d'oiro, de lhama prateada, de sedas damascadas. Outras, sentadas nos degraus do estrado, escolhem joias, que passam de mão em mão, e que a aia Leonor—pequenina como feita para o dedal—entrega á princeza.—Escurece.
Uma das aias canta em surdina:
«Estava a bella Infanta»
«No seu jardim assentada»
«Com o pente d'oiro fino»
«Seus cabellos penteava.»
«Deitou os olhos ao mar»
«Viu vir uma nobre armada;»
«Capitão que n'ella vinha»
«Muito bem que a governava.»
INFANTA—com abandono, deixando cair lentamente pedras soltas, uma a uma, na mão da aia