A Junta teria sido melhor organisada, se os Snrs. Visconde de Beire, e Visconde d'Alcobaça, não tivessem depois da noite de 9 d'Outubro de 1846 voltado á vida privada.

Se o Snr. José Passos teve alguma parte na escolha dos individuos que formaram a Junta, faz-lhe muita honra o ter escolhido para membros della alguns cavalheiros que antes estavam em divergencia com elle na questão eleitoral.

O Snr. José Passos, como encarregado dos negocios da Fazenda, e em cumprimento das ordens da Junta, procurou muitos recursos para a sustentação da causa nacional—aboliu alguns tributos, como foi o do pescado—reduziu as sizas a cinco por cento—permittiu durante a guerra civil o livre fabrico do sabão, e a admissão do estrangeiro com modicos direitos—alliviou os jornaes, e impressos dos portes do correio.—promoveu com grande actividade a cobrança dos rendimentos publicos—introduziu a mais sevéra{30} fiscalisação, economia, e regularidade nas repartições a seu cargo—mostrou severidade contra os prevaricadores, e maus funccionarios—empregou muitos esforços para adiantar a contabilidade das repartições publicas, e para evitar roubos e desperdicios que tão vulgares costumam ser em épocas de commoções n'outras nações.—Fundou a casa da moeda em Monchique.—A conta da receita e despeza effectuada no cofre central do Porto, achava-se lançada no livro respectivo, indicado nas instrucções de 8 de Fevereiro de 1843, que existe em poder das authoridades da situação desde 30 de Junho de 1847. É de presumir que o governo actual a mande imprimir e distribuir pelas camaras legislativas; visto que a Junta se acha dissolvida, e os seus membros não tem caracter algum governativo.

Os governadores civis, os thesoureiros pagadores, os delegados do thesouro, os empregados das secretarias, directores d'Alfandegas, administradores e recebedores de concelho, e todos os mais empregados fiscaes desempenharam as suas funcções com zelo, actividade, e intelligencia. Os commissarios do governo, junto aos bancos, companhias, emprezas, e contractos, tambem cumpriram os seus deveres com moderação, fidelidade, e dignidade.

Com mil quarenta e dois contos trezentos sessenta mil trezentos e cincoenta e dois reis, sustentou, por espaço de nove mezes, um exercito maior do que actualmente temos—forneceu dinheiro para a compra d'armas, petrechos de guerra, seiscentos cavallos e{31} arreios—para fardar milhares de soldados, e voluntarios—para sustentar a marinha, fazer duas expedições, fortificar a cidade muito melhor do que o estava no tempo do famoso cêrco—e para muitas outras despezas extraordinarias conducentes ao triumpho da revolução. A responsabilidade moral da Junta e dos que geriram os dinheiros publicos ou particulares, consiste principalmente em provar que o não applicaram para seu particular proveito, mas sim para o bem da causa de que o povo os encarregou.

Mas o que sobremaneira honra a Junta, é as poucas medidas violentas de que, no meio de tão extraordinarias circumstancias, lançou mão, quando parece tinha um perfeito conhecimento de quem eram os conspiradores que ajudavam o governo de Lisboa, e dos seus planos! Os emprestimos forçados de dinheiro foram insignificantes. Os de generos, pipas, vinhos, palhas, madeiras &c., foram insignificantissimos—porque havia uma grande porção de donativos voluntarios.—Os mappas que por ordem da Junta se estavam formando nos governos civis para juntar aos relatorios dos encarregados das diversas repartições, continham preciosissimos dados estadisticos para se avaliar não só a economia e regularidade das authoridades da Junta—mas os sacrificios do povo para a conservação da sua liberdade.—As intenções da Junta eram que se pagassem todas as despezas feitas para o triumpho da causa popular, logo que a capital adherisse á vontade nacional.{32}

Um governo justo e amigo da prosperidade nacional, não póde deixar de mandar liquidar essas quantias que se ficaram devendo, e pagá-las da maneira mais suave tanto para o Estado, como para os mutuantes forçados. As despezas das guerras civis quando os partidos belligerantes se equilibram, devem ser pagas pelo thesouro publico. A Junta merece a gratidão dos mutuantes pelos esforços que fez para obter para estes, das potencias interventoras, ou do governo de Lisboa o prompto pagamento. Vejam-se as instrucções dadas aos plenipotenciarios ou agentes da Junta encarregados das negociações.

A administração financeira da Junta foi das mais economicas e regulares que neste paiz tem havido.

Como vice-Presidente, mandou o Snr. Passos José expedir muitos officios e ordens para se activar o recrutamento—para se promoverem donativos de milhos, palhas, salitres, polvora, armas, petrechos de guerra, e cavallos; e para se enviar o mais que se necessitava para que nos depositos houvesse sufficiente porção de tudo o que fosse indispensavel para se prolongar a resistencia nacional. Não se póde escrever, como o deve ser, a historia da revolução, e da administração da Junta, sem se lêr e examinar os copiadores das diversas repartições, e do commando em chefe, e muitos outros documentos importantes que nos foram confiados.

O Snr. Passos José, como encarregado dos negocios estrangeiros, procurou manter as relações d'amizade{33} com as nações alliadas, e sustentar a todo o custo a honra, dignidade, e independencia nacional—e não dar pretextos para que os gabinetes estrangeiros se intromettessem em nossos negocios.