"Não te desdenho, ó Filha: do meu throno
Tu és robusto apoio; os teus serviços
A obrigação me impõe de ser-te grata:
Morrerá quem te affronta"
Disse; e n'astea da Fouce o corpo firma,
Ergue-se, e ensaia para o vôo as azas:
Nos cantos da caverna os negros Mochos
Soltão da morte o grito.
Eis que estranho clarão, rompendo as trévas,
Súbito inunda a lôbrega morada;
Eis apparece (mortal raio á Invéja)
Em branca nuvem Lysia.
Brando surriso esmalta-lhe o semblante,
Nos olhos o prazer lhe reverbéra,
Luz-lhe na dextra lâmina de bronze,
Qual astro, fulgurosa.
Com garbo magestoso a vestidura
Sobraça roçagante; e assim que arrósta
O Nume aterrador, na voz suave
Taes expressões lhe envia:
"Chorosa, amargurada, longo tempo
Curva ante o Solio do adoravel Fado,
Ferventes rogos, humidos de pranto,
Fiz subir-lhe á presença.
De Elmano, do meu Vate a vida em risco:
Meu coração materno consternava:
Elle era a gloria minha; ella morrêra,
Se morresse o meu Vate.
Regeitado, porém, não foi meu rogo:
O Fado para mim sempre benigno,
Risonho me outorgou (mercê não tenue)
O suspirado indulto.
Eis o Decreto seu:" (e entrega ao Monstro
A lâmina de bronze.) Ao vê-lo a Parca,
Depondo a curva Fouce, inclina a frente,
E reverente o beija.
"Cumpre-se, ó Lysia, (diz) a Lei do Fado."
Exulta Lysia, e presurosa surge
Da habitação medonha: opácas sombras
De novo alli se espessão.