N'esta, cuja memoria esquece á Fama,
Feira, que a Santarem vem de anno em anno,
Jazia co'uma freira um franciscano;
Eram de barro os dous, de barro a cama:
Co'a mão, que á virgindade injurias trama,
Pretendia o cabrão ferrar-lhe o panno;
Eis que um negro barrasco, um Frei Tutano
O espectaculo vê, que os rins lhe inflamma:
«Irra! Vens-me atiçar, gente damnada!
Não basta a felpa dos bureis opacos,
Com que a carne rebelde anda ralada?
«Fora, vís tentações, fora, velhacos!..»
Disse, e ao rispido som de atroz patada
O escandaloso par converte em cacos.
[XII]
Amar dentro do peito uma donzella;
Jurar-lhe pelos ceos a fé mais pura;
Falar-lhe, conseguindo alta ventura,
Depois da meia noute na janella:
Fazel-a vir abaixo, e com cautela
Sentir abrir a porta, que murmura;
Entrar pé ante pé, e com ternura
Apertal-a nos braços casta, e bella:
Beijar-lhe os vergonhosos, lindos olhos,
E a bocca, com prazer o mais jucundo,
Apalpar-lhe de neve os dous pimpolhos:
Vêl-a rendida em fim a Amor fecundo;
Ditoso levantar-lhe os brancos folhos;
É este o maior gosto, que ha no mundo.