—Nunca! Se eu chegava a esta idade sem me casar, para commetter agora uma loucura d’essas. Os homens...
—São uns monstros, bem sei. Ainda se não emendaram? E eu que fui á Italia de proposito para pedir ao Papa a canonisação em massa de todo o sexo masculino! Mas, segundo vejo, os maganões são incorrigiveis.
—Olhe, sr. Corte-Real, hoje em dia bem tolo é quem se casa. Os homens são estouvados, e as senhoras seguem-lhe o exemplo. É moda que veiu agora de França.
—Veiu? Ah! e eu que me esqueci de ver os figurinos!
—Vamos para a sala, Alberto, interrompeu meu marido, que via a conversação tomar o caminho costumado. Lá podes-te enxugar melhor.
Levantámo-nos e fomos para a sala.
Estava o fogão acceso, e o lume derramava no aposento um suave calor. O guarda luz do candieiro, concentrando o fulgor todo na mesa, á roda da qual nos sentámos, deixava ficar na penumbra o resto do quarto. A chuva batia nas vidraças, e o vento zunia com violencia, engolphando-se pelo tubo do fogão.
—Ah! disse Alberto, sentando-se n’uma cadeira á Voltaire, venham-me agora fallar nos prazeres das viagens! Não conheço nada melhor do que esta deliciosa sensação, que se apodera de nós, n’uma noite bem fria e bem invernal, ao sentarmo-nos n’uma cadeira macia, junto do bom fogo, entre duas ou tres pessoas que nos estimem, sentindo o vento sibilar, e a chuva bater nos vidros. E pensar-se que a estas horas anda um barco ao longe, no alto mar, affrontando a tempestade, que lhe descose as pranchas, e lhe açoita a vela, em quanto o pescador, vendo as ondas embravecidas a rugirem morte por todos os lados, vae scismando como Victor Hugo,
Au vieux anneau de fer du quai plein de soleil!
—Safa, que egoista! exclamou Claudio.