—Egoista sim. Meu amigo, não ha prazer algum n’este mundo, em que não entrem tres quartas partes de egoismo. É um prazer egoista? Bem sei: já Lucrecio o disse antes de ti n’uns versos que não cito por duas razões: a primeira porque são em latim...
—E a segunda? perguntei eu.
—Porque nunca li Lucrecio, minha senhora.
Desatei a rir.
—Mas, então, continuei, como é possivel que viajasse tanto, detestando por essa fórma as viagens?
—Detestar as viagens! eu, minha senhora! pelo contrario, adoro-as!
—Mas, parece-me...
—Perdão. Entendâmo-nos, minha senhora; este prazer, que eu estou sentindo agora, tambem ás viagens o devo. É o contraste que lhe dá este sabor tão agradavel e picante. Hontem, sósinho no convez do paquete, via a solidão immensa dos mares, ouvia os melancholicos lamentos das ondas, contemplava o ceu toldado, que se desenrolava sobre a minha cabeça como plumbeo manto; hoje aperto a mão a um amigo de infancia, tenho a ventura de estar conversando com senhoras amaveis e espirituosas, sinto-me envolvido por uma atmosphera tepida, perfumada das fragrancias da terra natal, e, recostando-me voluptuosamente n’esta cadeira, vendo ali chispar um fogo delicioso na moldura do fogão, mirando as figuras do guarda-luz do seu candieiro, esfrego as mãos, como um egoista, e digo: «Como deve estar o mar a estas horas?» Baloiço-me aqui indolentemente, e continuo: «Como os navios dançam fóra da barra ao som d’essa valsa tocada pela orchestra das vagas, e composta por esse Strauss maravilhoso, que se chama Deus!» Este prazer sou aqui eu só quem o saboreia; digam-me lá se sentem o mesmo que sente o viajante recem-chegado?
—Não, acudiu meu marido, mas sinto eu, pelo menos, o prazer tambem delicioso de tornar a ver um amigo ha dois annos ausente.
—Meu bom Claudio! respondeu Alberto, pegando na mão de meu marido, e apertando-lh’a com affecto. Mas, continuou, ainda ha outro prazer, que eu não mencionava, e que não deixa de ser, comtudo, digno de citar-se.