—Que doce conformidade de sentimentos!{99}
—Tambem eu, minha senhora, tanbem eu, tornou Eduardo distraidamente.
—Que diz?
—Que tambem me enleva, emendou elle, essa conformidade de sentimentos! Estou ancioso por ouvir a Lucia.
N'este ponto vejo-me obrigado a estygmatisar o meu heroe. Tornou-se cumplice de um assassinio. Para se salvar da entalação, em que a sua distracção o tinha collocado, sacrificou Donizetti, e a sua opera magistral. É imperdoavel!
—Quando o crime de lesa-harmonia se consummou, e foi devidamente applaudido por todos os circumstantes,o nosso Bernardo Guimarães, dirigindo-se ao moço alferes, convidou-o a ir dar um giro pela villa. Eduardo acceitou o convite com o enthusiasmo que os seus ouvidos magoados lhe inspiravam.
E, depois de ter trocado um olhar amoroso com a romantica donzella, saiu para ir admirar a villa de Santo Thyrso, e o seu convento.
N'essa mesma noite, pouco depois das onze horas, estava Eduardo Teixeira collocado no quintal da casa do sr. Guimarães, ao pé de{100} uma janella pouco elevada, janella que servia de tribuna, onde a joven provinciana, declamava emphaticamente os seus discursos sentimentaes.
Infelizmente para a romantica oradora, a noite estava fria e humida, o que tinha por tal fórma congelado a pouca doze de sentimentalismo, de que Eduardo podia dispôr, que respondia a uns protestos d'amor ardentes, com uns queixumes sobre a frialdade dos pés, e a um trecho sublime ácerca da lua argentea, da rainha da noite, com um espirro acompanhado por uma dissertação scientifica sobre o perigo das constipações desprezadas.
Estavam pois aquelles dois entes poeticos embebidos em tão suaves colloquios, quando de repente no quintal se sentiram passos apressados.