IV
Os meus leitores, se forem imparciaes, hão de confessar, que nunca leram scena de tanto effeito, nem de interesse tão palpitante.
O sr. Dyonisio, tyranno interino, typo de janota portuense (vide romances de Camillo Castello Branco) vinha embuçado n'um capote de camellão. Ora sabido é, que todos os embuçados, mesmo em chales-mantas, são terriveis; mas os embuçados em capotes de camellão attingem as raias da sublimidade melodramatica!
A victima masculina é Eduardo Teixeira, que um defluxo, complicado por uma grande{104} frialdade de pés, torna duplamente interessante aos olhos de todos os leitores compassivos. A victima feminina é D. Emilia Guimarães, a qual, comprehendendo a situação n'um abrir e fechar d'olhos, elevou-se rapidamente á altura do seu papel, caindo artisticamente em cima d'uma poltrona, á falta de confidente, a quem dissesse como nas tragedias classicas:
Desmaiar vou! Recebe-me em teus braços.
—Então quem é bossenhoria? Que fazia o senhor n'este quarto? perguntou o sr. Dyonisio, tirando o chapéu desabado com gesto magestoso, e armando-se de luneta, á falta de punhal.
—Eu... senhor... eu, tornou Eduardo, convencido que era o irmão, e conscio por conseguinte do direito que elle tinha para fazer a pergunta.
—Dyonisio, juro-te que sou innocente, exclamou a menina Emilia, levantando-se rapidamente, e correndo a ajoelhar-se aos pés do homem de capote de camellão, acredita-me Dyonisio.{105}
—Levantai-vos, senhora, vós não sois culpada; mas o infame seductor...
—Oh! senhor eu não seduzi ninguem.