—Calai-vos.

—Dyonisio, peço-te justiça, e não indulgencia. Eu não trahi os meus deveres, juro-o perante o ceu, que estende sobre as nossas cabeças o seu manto azul, puro como a minha alma.

Exageração de metaphora. Sobre as suas cabeças estava apenas o tecto, que nem era azul, nem puro; porque estava muito sujo das moscas.

—Póde acreditar o que sua irmã lhe diz, atalhou Eduardo, posso asseverar-lh'o debaixo da minha palavra de honra.

—Minha irmã? As filhas da casa de Val-de-Camellos portam-se d'um modo mui differente do d'esta menina, indigna mesmo de sustentar o nome honrado de seu pae, o sr. Bernardo Guimarães.

—Não lhe admitto mais insultos, sr. Dyonisio Antunes de Val-de-Camellos, tenho a honra de lhe apresentar meu marido, o sr. Eduardo Augusto d'Almeida Teixeira.{106}

—Perdão, perdão, minha senhora, interrompeu com vivacidade o moço alferes, eu não hesitaria um momento em a chamar minha esposa, se devesse a v. ex.ª uma reparação, mas não ha coisa alguma que a isso se assimelhe, e, visto este senhor não ser seu irmão, vou ter com elle uma explicação mais corrente. Direi pois ao sr. Dyonisio de Val-de-Camellos, que está perfeitamente equivocado a meu respeito. Esta senhora lhe explicará, se a isso quizer descer, o motivo porque entrei no quarto d'ella. Poder-lhe-ia eu perguntar tambem o motivo porque veio cá metter o nariz. Comtudo, dir-lhe-hei unicamente que não tenho que lhe dar satisfações, a não ser n'um sitio mais conveniente do que este a explicações da natureza, das que hão de ter logar entre nós. O modo insolente com que me tratou a principio, merece uma correcção, e hade tel-a. Estou ás suas ordens.

—Um duello, e por minha causa, bradou Emilia, despenteando-se e procurando arranjar um olhar desvairado, oh! não façaes com que o sangue venha manchar as minhas vestes virginaes.{107}

—Vamos embora, sr. Dyonisio.

—Vamos lá, respondeu o homem de capote de camellão, em tom um pouco menos arrogante.