E no gabinete cheio de conforto e de luxo aquellas palavras tristes, desesperadas e expirantes soavam lugubremente como um grito de agonia nas alegrias de um noivado...
—V. ex.a não sabia de uma cousa que lhe vou agora dizer. Seu pae salvou-me da morte uma vez no cerco do Porto, eu salval-o-hei custe o que custar das... garras da...
—Miseria, disse o moço com o rosto ligeiramente carminado.
—Pois seja assim! Começaremos a combater o monstro hoje mesmo. Para isso é preciso que V. Ex.a envergue as armas proprias para combates d'esta ordem. Em vez do arnez, do broquel, das cannelleiras e do elmo, aconselho-lhe que se vista com elegancia igual á sua gentileza, porque vae combater a féra no salão da mais elegante senhora de Lisboa, e ante a presença das nossas mais acentuadas celebridades politicas e litterarias. Até logo, não é assim? disse o velho estendendo com uma graça adoravel a mão a Antonio de Vasconcellos que desceu as escadas enceradas com o coração cheio de sol e de alegria.
—Não estejas triste, a casaca fica-te bem, não está muito nova, mas ninguem repara. Põe este botão de rosa na casa. É bonito. Vaes mesmo um taful—dizia a irmã de Antonio de Vasconcellos recuando e examinando amoravelmente o moço.
Depois, com um gesto impregnado de um mixto singular de protecção e de doce auctoridade, continuou:
—Prohibo-te que estejas com essa cara desconsolada. Digo-te eu que és o mais bonito que lá apparece. Depois m'o contarás.
E conversando e rindo n'um abandono divino e infantil, aquelles dous camaradas na adversidade, edificavam castellos de ventura, esquecidos de que o padeiro n'aquelle dia recusara fiar-lhes mais pão. Oh mocidade!