Jorge de Alvim n'aquelle dia parecia exceder-se a si proprio, tão brilhantes eram as suas respostas, tão finas as suas ironias, tão cheias de sal as anedoctas com que encantava os conselheiros, ministros e jornalistas que estavam á mesa da elegante condessa de X***.
Fallou-se em diamantes. Jorge de Alvim desde logo entrou a historiar casos e anedoctas a tal respeito. Narrou as aventuras de diamantes que se tornaram celebres pelas peregrinações em que andaram, e assim precisou com uma erudição graciosa a historia do Sancy, diamante que foi de Carlos o Temerario, e que das mãos d'este passou para as de um Duque de Florença e depois para o poder do Prior do Crato, que o empenhou ao intendente das finanças em França, Harley de Sancy, de onde lhe proveio o nome.
—Ainda aqui não pára, minhas senhoras, a odysséa d'esta pedra. Harley de Sancy quando Henrique IV de França antes de ser reconhecido se achou em grandes apuros de dinheiro, mandou vender esse diamante aos judeus de Metz. O homem encarregado de tão preciosa missão, cahindo nas mãos de uma quadrilha de bandidos, e receiando que lhe roubassem o thesouro que levava, engulira a pedra...
—Ora essa! disse a dona da casa.
—Verdade pura, minha senhora. O cadaver foi descoberto passados tempos no bosque de Dôls, e aberto o ventre, acharam o diamante que foi vendido a Jacques II de Inglaterra, de cujo poder passou para o de Luiz XIV.
—E depois? disse uma das senhoras. Não póde parar ahi esse longo peregrinar de que V. Ex.a está sendo um Fernão Mendes...
—Minto?... pois seja assim. O que posso afiançar a V. Ex.a é que esta pedra, depois de varias e encontradas vicissitudes acabou por onde acabou a esposa de Meneláu... Foi roubada, e hoje pára nas mãos dos Russos.
—Justamente o que mais dia menos dia succederá ao seu magnifico annel, Sr. Jorge de Alvim, tornou a mesma interruptora, dardejando um olhar guloso e felino á pedra do annel...