A 24 de Fevereiro de 1777 morria el-rei D. José, e na manhã dêsse mesmo dia, quando o marquês de Pombal, segundo o costume, se encaminhava para os quartos em que o seu régio amo agonizava, tolhia-lhe o passo o cardeal da Cunha, dizendo-lhe em tom altaneiro: «V. ex.ᵃ já não tem nada que fazer aqui.»

Nesta frase desdenhosa resume-se uma das mais monstruosas ingratidões da história. O cardeal fôra uma criatura do marquês; para ter chegado ao fastígio do poder que ocupava agora, não tivera outra recomendação alêm da que lhe dava, naquele tempo, o prestígio do seu nome. Como êsse nome, ainda assim, era o de Távora, o cardeal teve a baixeza de o renegar, só por julgar que isso seria um requinte de côrte feita ao seu poderoso protector.[66] De resto, vaidoso e ignorante, a sua Biblioteca, composta de onze mil volumes, inspirava ao conde da Ponte o conhecido chiste das onze mil virgens; e nada mais nulo do que a sua figura de estadista improvisado por um capricho do marquês de Pombal, que tão cruelmente expiou a fraqueza de ter confiado nêle, ou o cálculo de o ter querido como inofensivo companheiro de govêrno.

Formulou-se desde logo um programa completo de reacção, que rápidamente se pôs em prática em seguida à morte de el-rei.

O primeiro sintoma dessa reacção impudente e súbita foi a desatenciosa frieza com que o marquês, ontem omnipotente, começou de ser tratado por todos aqueles que se haviam curvado, em abjecta adulação, ante os excessos do seu poder e os abusos da sua autoridade.

Uma parte, e a mais louvável do programa dos novos conselheiros da rainha, consistia em abrir de par em par as portas dos cárceres em que jaziam desesperadas as vítimas da política pombalina e do ódio de D. José.

Imagine-se a alegria, o férvido entusiasmo de Leonor de Almeida, quando a notícia de que iam ser finalmente soltos, depois de um cativeiro de dezoito anos, todos os sobreviventes da tragédia de Belêm, soou através das grades que a separavam do mundo, sem contudo, a terem alheado de nenhum dos seus interesses.

Era uma hora da noite quando o marquês apareceu no locutório de Chelas, onde o estavam esperando a chorar de convulsa alegria as filhas e a mulher. Figure-se o que seria o encontro dos dois esposos! Tinham-se separado havia dezoito anos sem se tornarem mais a ver, nem sequer de longe. A ela tinham-lhe arrancado dos braços um gentil cavaleiro, na flor da mocidade, esbelto, airoso, desempenado e forte; êle deixava uma mulher lindíssima, que a maternidade fizera mais adorável sem a ter feito menos bela, e cujos olhos, de um azul violeta, cujos louros cabelos abundantes, cuja fisionomia idealmente fina vemos magistralmente reproduzida no retrato esplêndido que dela existe ainda[67]. Que mudança nos dois! O marquês vinha curvo, cansado, envelhecido e triste. As faces trazia-as precocemente avincadas pelas meditações dolorosas; nos olhos havia-se-lhe apagado o fogo da temerária juventude; os cabelos, outrora elegantemente polvilhados à moda da côrte, vinham brancos sim, mas embranquecidos pelo martírio. Por sôbre ela haviam rodado pesadamente, lentamente, os dias da separação e da clausura; mas os vestígios de uma notável beleza ainda se não haviam de todo apagado nesse rosto que a alegria de ver o seu adorado ausente purpureava agora.

Nenhum requinte de garridice cortezã restava ao infeliz prisioneiro, para quem Leonor de Almeida—sabendo que as suas cartas eram interceptadas e lidas antes de serem entregues—pedia a quem as lesse, empregando as frases da mais terna súplica, «uma capa de baeta ao menos que o resguardasse dos rigores do frio no seu húmido càrcere.»[68]

Mas, velho como estava, lá dentro ardia a mesma chama impetuosa de orgulho. Não queria aceitar a clemência régia como uma esmola voluntária, senão como um preito justo, uma restiuìção devida a quem muito a merecia.

Por isso, longe de se dar por satisfeito com a amnistia concedida a quási todos os presos políticos do tempo de D. José, vê-lo hemos em breve começar essa demanda longa e complicada da sua completa reabilitação judicial, requerendo, acompanhado pelo conde de S. Lourenço, D. João Ansberto de Noronha, e por três irmãos do marquês Francisco Assis de Távora, a nomeação de uma junta de magistrados para se pronunciarem acêrca da sua inocência ou culpabilidade. E emquanto êsse tribunal, que, por ordem da rainha, não tardou a constituir-se, demorou o seu parecer, o marquês recusou-se formalmente a ficar na côrte.