Mas é provável que nessa hora singular da sua mocidade, hora de ardentes esperanças, de violenta reacção contra a desgraça que por tantos anos perseguiu todos os seus, hora rubra, iluminada de tôdas as vivas côres de uma imaginação de poeta, Leonor não tivesse uma predilecção muito pronunciada pelos pinheiros agudos, nem pelos buliçosos canaviais da sua solitária Almeirim.
Só amam verdadeiramente o repouso no seio da natureza aqueles a quem a vida frustrou tôdas as promessas feitas, e que dela cessaram de esperar seja o que for.
Leonor esperava ainda muito do mundo; êle devia-lhe uma famosa desforra. Emquanto lh’a não desse ou a não persuadisse a poder de desilusões de que era um devedor insolúvel, Leonor não queria nem descanso nem solidão.
O que ela provávelmente ambicionava agora, já cansada de regras conventuais e de rezas e de misticismo, era mover-se, agitar-se, viver em tôda a plenitude, e tôda a exuberante energia da sua mocidade, em tôdas as faculdades do seu curioso e irrequieto espírito. Era participar da alegria dos outros, de que tantos anos estivera exilada; era falar com gente môça, despreocupada e feliz; ouvir os discretos galanteios e as floridas frases namoradas dos rapazes do seu tempo, e manifestar a graciosa agudeza do seu entendimento em práticas literárias e eruditas com os celebrados engenhos da época; era resvalar gentilmente entre finos requebros galantes, nos minuetes dos esplêndidos saraus, acompanhada por um par preferido; era mostrar emfim a olhos que soubessem apreciar e ver, a sua impecável formosura peninsular, os seus grandes olhos luminosos e ardentes onde se reflectia tanta exaltação, tanta espiritualidade e tanta vida.
O duque de Châtelet, que fêz a sua viagem a Lisboa justamente no ano em que as filhas do marquês de Alorna deixaram o convento de Chelas (1777), fala do abatimento em que as havia pôsto a longa reclusão nestes termos precisos: Vi duas raparigas que tinham entrado para a prisão, acompanhando os pais, ainda na primeira infância e que saíam com dezenove e vinte anos parecendo quarenta. (Voyage en Portugal du duc de Châtelet).
Ora a verdade é que não pareciam ter quarenta nem tinham vinte. Leonor tinha vinte e seis anos; tinha vinte e cinco a irmã, e não podiam parecer muito mais velhas, porque, posterior à data a que se refere o duque de Châtelet, é o retrato da nossa biografada que ainda hoje se admira numa das salas da magnífica vivenda dos marqueses de Fronteira, em Bemfica, e nesse retrato a beleza imperial de Leonor ressalta com expressão admirável. Não era sómente uma mulher bonita, era uma mulher encantadora. Tinha a sagacidade crítica, o espírito leve e sarcástico, e a observação nítida e profunda de um moralista. Nas suas poesias contaminadas, é certo, pelas pechas da escola pseudo-clássica, em que fôra educada e à qual subordinava o seu nativo engenho, cheias de alusões mitológicas indispensáveis ao tempo, revela-se no entanto um belo poder descritivo e uma fôrça de reflexão viril. Mais tarde a educação que lhe deram as viagens e o conhecimento da literatura estrangeira completaram e aperfeiçoaram o seu talento, e ela foi entre nós, como a Stael em França, uma espécie de iniciadora, de reveladora do pensamento e da poesia do Norte, que nos eram inteiramente desconhecidos.
Em Almeirim, nessa espécie de entre-acto no meío de dois dramas diversíssimos, Leonor sonhou de-certo com os triunfos que o seu talento lhe ia conquistar, e com as delícias que lhe daria ao sair da clausura a intimidade da família, agora completa. É tão natural êste sentimento, que nem o mais scéptico espírito masculino seria capaz de esquivar-se-lhe.
Mas não tardou que uma nuvem, prenúncio de muita tempestade interna, ameaçasse de avolumar-se sôbre a fronte da juvenil poetisa.
O seu pai, o seu querido pai, o confidente da sua sombria mocidade, o amigo com quem ela desabafava todos os seus pensamentos, ainda os mais ocultos, o juiz continuamente invocado para julgar os seus versos, para aconselhar as suas leituras, o espírito a que ela chamava irmão do seu, e com o qual se comprazia em alar-se pelos livres espaços da abstracção e da filosofia—que diverso lhe aparecia do que ela tinha imaginado em longas horas de idealizadora e de inspirativa saudade! Que diferente dessa figura ideal que ela se tinha deliciado em criar na solidão do seu quarto de Chelas, quando escrevia envolta num roupão de sêda côr de fogo, com os belos cabelos soltos, e feliz por sentir-se uma heroína de romance, ou uma gentil figura, digna da história pelo infortúnio e pela grandeza da resignação.
Oh! o marquês não mudara; era o mesmo homem rígido, inteiro, coerente, que sempre fôra; seguia a lógica do seu destino, e mais nada. É certo que êle recebera, pelas suas leituras juvenis, o influxo das ideas que, provindas da Inglaterra liberal de 1688 e divulgadas pela França filosófica e investigadora de Bayle, de Montesquieu, de Voltaire, irrompiam para nós através da espêssa nuvem de preconceitos que nos separavam do mundo, e se iam insinuando subtilmente nos espíritos mais aptos para as acolherem. O marquês de Alorna pertencera áquele número, bastante avultado, de fidalgos inteligentes, mas de uma inteligência restrita, que aceitavam até certo limite,—imposto por êles—as novas ideas em ebulição, contanto que elas não passassem da esfera puramente abstracta para o campo dos factos definitivos e das leis reformadoras. Queria, é certo, distinguir-se pelo pensamento livre e pelo critério desassombrado[70] dessa plebe beata ou hipócrita, dissoluta ou bestificada, que então enxameava, ociosa e resmungando avè-marias, pelas portarias dos conventos de Lisboa, ou pelos pátios da fidalguia opulenta, que a alimentava das migalhas dos seus banquetes, ou das rações do seu refeitório; mas não admitia que essa plebe se emancipasse pela educação, e se fizesse povo pelo trabalho, pela fôrça e pela consciência dos seus direitos e deveres.