Depois vira o espírito das novas ideas encarnado no homem que êle entre todos odiava, e tinha razão para odiar, no algoz da sua família, no perseguidor da sua casta. A burguesia,—que para o marquês de Alorna era representada pelo procurador oficioso, pelo boticário esguio e grotesco, pelo escrevente pedinchão, pelo físico condescendente e mesureiro, por tôda a caterva de aduladores e de parasitas que se atropelavam nas ante-câmaras patrícias, e de cuja falange retardatária, Tolentino, infelizmente um dêles, mas um dêles com génio, fêz depois a sátira brilhante e a descrição pungitivamente exacta,—a burguesia emancipara-se, levantara-se, enriquecera, civilizara-se, creara indústrias e comércio e grandes lavouras[71] e manufacturas florescentes sob a inteligente protecção de Pombal.

A Igreja, auxiliar e amiga da aristocracia em todo o antigo regime, fôra despojada de grande parte dos seus privilégios e imunidades pela mão poderosa do grande inimigo de Alorna. O marquês de Pombal implantava ideas revolucionárias, servindo-se das armas do mais intransigente absolutismo. Esta contradição fundamental da sua obra é que a condenou a ser passageira e efémera. No espírito do pai de Leonor todo êste espectáculo contemporâneo produziu o natural retrocesso, que mais tarde se produziu tambêm em França no espírito da nobreza momentâneamente subjugada e namorada pelas generosas concepções da filosofia do século XVIII, e que essas mesmas concepções executadas e levadas até às suas conseqùências lógicas encheram de justificado pavor.

Leonor, que saía do convento cheia de belas máximas, propagadas pelos filósofos da enciclopédia, e que julgava seu pai inteiramente convertido às mesmas doutrinas de liberdade e de filosofia, teve ao primeiro contacto real com o espírito endurecido do desenganado fidalgo, uma verdadeira e cruel decepção.

Entre o pai e a filha cavou-se então um abismo moral que nunca mais foi transposto. Êles que tão bem se tinham combinado por escrito, em generalidades vagas sôbre a inanidade das grandezas, sôbre os prazeres da filosofia, sôbre o pouco valor das convenções sociais; êles que tinham ambos dissertado tão largamente sôbre o muito que o bem dos povos sobrelevava ao bem dos imperantes[72] e sôbre outros temas igualmente favoritos da filosofia declamatória e vaga do século—ei-los que se achavam agora divergentes em quási tôdas as matérias que versaram. A desgraça e os desenganos de um, levavam-no impetuosamente arrastado por uma corrente contrária áquela que impelia Leonor, vibrante de aspirações e de sonhos, para um futuro mais desassombrado de convenções estreitas, mais livre de superstições e de tiranias.

O marquês de Alorna voltara completamente a ser o fidalgo devoto e ferrenhamente aristocrático, com assômos violentos de revolta feudal, que deixara de ser por momentos, durante o tempo em que «pérfidas leituras de filósofos dignos de queima»[73] o tinham afastado do bom caminho. Aceitava, até às suas conseqùências extremas, os princípios da reacção que tumultuava impudente e feroz desde o paço, em que o rei e a rainha viviam ajoelhados no oratório, até à rua; desde os camarins forrados de tapeçarias de Arras, em que as damas da côrte tocavam no cravo músicas de Haydn, de Gluck e de Jomelli, até à taverna em que as rameiras e os mendigos cantavam ao som do violão nacional as sátiras populares em que figuravam

Marquês, Mendonça e Mansilha[74].

os poderosos de ontem, hoje vituperados e cuspidos sem dó.

Comandava essa reacção desbragada o novo ministério da rainha, em que Angeja e Vila Nova da Cerveira representavam a aristocracia soberba, intransigente e cobiçosa, consumada na arte da cortesania e da lisonja; em que a figura enigmática de Martinho de Melo se destacava pela inteligência cultivada e fina, pela mordacidade irónica, pelo conhecimento profundo das civilizações estranhas de que se penetrara largamente em França, na Inglaterra e na Holanda, pela hábil dissimulação com que ocultava, sob a aparência de um fiel servidor da causa da nobreza, um espírito de radical e de livre-pensador, capaz no fundo de continuar a obra de Pombal, se o scepticismo não fôsse um corrosivo, um dissolvente do carácter e da vontade.

Ao pé dêle Aires de Sá e Melo, ministro da guerra e dos estrangeiros, mas com vocação frustrada para cónego da patriarcal, não se cansava de recomendar à tropa que rezasse quotidianamente o têrço, beijava a manga de cada frade que encontrasse no caminho, e benzia-se tantas vezes ao ouvir missa que era o espanto e a distracção cómica de quem lhe ficava ao pé.

Quanto ao jôgo de xadrês complicado e subtil da diplomacia europeia, era letra morta para o devoto ministro, que de resto, na arte da guerra era tão profano como na de negociador.