O cardeal da Cunha completava êste banal ministério, ao qual devia incumbir o gigantesco encargo de continuar, aperfeiçoando-a, a obra da regeneração portuguesa, iniciada pelo grande ministro de D. José. Já que não podiam nem queriam continuá-la, houve entre elles um preposito o de restituir ao cemitério da história o Lázaro que a poderosa mão do grande ministro galvanizara temporáriamente, e n’elle concordavam com perfeita unanimidade o orgulho de uns, a habilidade de outros, a demência e a ignorância do maior número.
Para o marquês de Alorna, essa reacção, uma das mais repentinas e violentas, tinha ainda um grande defeito. Era branda em demasia.
Ao seu ulcerado espírito só satisfaria cabalmente a condenação de Pombal a penas tão duras como as que êle infligira aos mais conceituados membros da velha nobreza, e a reabilitação da memória dos que tinham sido imolados ao que êle supunha um infernal enrêdo do ministro de D. José. Queria, alêm disso, que os sobreviventes fôssem restaurados em tôdas as suas honras e todos os seus haveres.
Que a sua própria inocência lhe fôsse reconhecida pela junta congregada pela rainha, isso tinha êle por certo, e assim se realizou a breve trecho.
Em Maio de 1777 expediu a soberana um decreto em que se declarava o marquês de Alorna puro de tôda a culpa de inconfidência restituindo-o às honras que por direito e nascimento lhe pertenciam[75].
Não ficava, porêm, ainda satisfeito o orgulho do marquês. Uma pretensão tinha a mais, que muito perto do coração lhe tocava. Vinha a ser a restituìção dos bens, honras e títulos da casa de Aveiro ao malogrado primogénito do duque, D. Martinho de Mascarenhas, conhecido entre os presos da Junqueira pelo marquesito.
Nem Latino, o qual explica larga e minuciosamente as diligências que o marquês de Alorna empregou para êste fim, nem outros escritores que temos lido, como Camilo Castelo Branco, Pinheiro Chagas, etc., conhecem os motivos particulares que determinaram o marquês de Alorna a meter-se ousadamente em tão difícil empreendimento. O leitor, porêm, já pelo capítulo precedente conhece êsses motivos. A filha mais nova do marquês de Alorna fôra prometida em casamento ao ex-marquês de Gouveia.
Neste ponto permita-se que abramos um parêntesis para contar até ao fim a lúgubre história de D. Martinho de Mascarenhas.
A instâncias do marquês de Alorna, que desde a sua saída da prisão não descansava neste assunto, subiu à rainha uma representação de que Latino Coelho[76] extracta os principais articulados, e em que o filho do duque de Aveiro se propunha comprovar que não podia ser infamado pela culpa de seu pai, aduzindo que era immune da pena hereditária por ser nobilíssimo, como descendente de régio tronco. Êste memorial parece haver sido firmado por um letrado de fama áquele tempo na côrte de D. Maria, chamado Francisco da Costa. E diz Latino que, ou porque o causídico fôsse fogoso de índole, ou porque a tardança no bom despacho da rainha azedasse os ânimos do defensor e do mandante, o caso é que o advogado de Gouveia propugnara com veementes razões os direitos do seu cliente.