—O poeta Ricardo de Loureiro.
E nós, um ao outro:
—Muito gosto em o conhecer pessoalmente.
Pelo caminho a conversa foi-se entabolando e, ao primeiro contacto, logo experimentei uma viva simpatia por Ricardo de Loureiro. Adivinhava-se naquele rosto arabe de traços decisivos, bem vincados, uma natureza franca, aberta—luminosa por uns olhos geniais, intensamente negros.
Falei-lhe da sua obra, que admirava, e êle contou-me que lera o meu volume de novelas e que, sobretudo, lhe interessara o conto chamado João Tortura. Esta opinião não só me lisongeou, como mais me fez simpatisar com o poeta, adivinhando nêle uma natureza que compreenderia um pouco a minha alma. Efectivamente, essa novela era a que eu preferia, que de muito longe eu preferia, e entretanto a unica que nenhum critico destacara—que os meus amigos mesmo, sem mo dizerem, reputavam a mais inferior.
Brilhantissima aliás a conversa do artista, alem de insinuante, e pela vez primeira eu vi Gervasio calar-se—ouvir, êle que em todos os grupos era o dominador.
Por fim o nosso coupé estacou em face dum magnifico palacio da Avenida do Bosque, todo iluminado através de cortinas vermelhas, de seda, fantasticamente. Carruagens, muitas, á porta—contudo uma mescla de fiacres mais ou menos avariados, e algumas soberbas equipagens particulares.
Descemos.
Á entrada, como no teatro, um lacaio recebeu os nossos cartões de convite, e outro imediatamente nos empurrou para um ascensor que, rapido, nos ascendeu ao primeiro andar. Então, deparou-se-nos um espectaculo assombroso:
Uma grande sala eliptica, cujo tecto era uma elevadissima cupula rutilante, sustentada por colunas multicolores em magicas volutas. Ao fundo, um estranho palco erguido sobre esfinges bronzeadas, do qual—por degraus de marmore rosa—se descia a uma larga piscina semi-circular, cheia de agua translucida. Três ordens de galerias—de forma que todo o aspecto da grande sala era o dum opulento, fantastico teatro.