Mas todas estas maravilhas—incriveis de perversidade, era certo—nos não excitavam fisicamente em desejos lubricos e bestiais; antes numa ansia d'alma, esbraseada e, ao mesmo tempo, suave: extraordinaria, deliciosa.
Escoava-se por nós uma impressão de excesso.
Emtanto os delirios que as almas nos fremiam, não os provocavam unicamente as visões lascivas. De maneira alguma. O que oscilavamos, provinha-nos duma sensação-total identica á que experimentâmos ouvindo uma partitura sublime executada por uma orquestra de mestres. E os quadros sensuais valiam apenas como um instrumento dessa orquestra. Os outros: as luzes, os perfumes, as cores... Sim, todos esses elementos se fundiam num conjunto admiravel que, ampliando-a, nos penetrava a alma, e que só a nossa alma sentia em febre de longe, em vibração de abismos. Eramos todos alma. Desciam-nos só da alma os nossos desejos carnais.
Porêm nada valeu em face da ultima visão:
Raiaram mais densas as luzes, mais agudas e penetrantes, caindo agora, em jorros, do alto da cupula—e o pâno rasgou-se sobre um vago templo asiatico... Ao som duma musica pesada, rouca, longinqua—ela surgiu, a mulher fulva...
E começou dançando...
Envolvia-a uma tunica branca, listada de amarelo. Cabelos soltos, loucamente. Joias fantasticas nas mãos; e os pés descalços, constelados...
Ai, como exprimir os seus passos silenciosos, humidos, frios de cristal; o marulhar da sua carne ondeando; o alcool dos seus labios que, num requinte, ela dourara—toda a harmonia esvaecida nos seus gestos; todo o horizonte difuso que o seu rodopiar suscitava, nevoadamente...
Entretanto, ao fundo, numa ara misteriosa, o fogo ateara-se...
Vicio a vicio a tunica lhe ia resvalando, até que, num extase abafado, sossobrou a seus pés... Ah! nesse momento, em face á maravilha que nos varou, ninguém pôde conter um grito de assombro...