Quimerico e nu, o seu corpo subtilisado, erguia-se liturgico entre mil scintilações irreais. Como os labios, os bicos dos seios e o sexo estavam dourados—num ouro palido, doentio. E toda ela serpenteava em misticismos escarlates a querer-se dar ao fogo...
Mas o fogo repelia-a...
Então, numa ultima perversidade, de novo tomou os veus e se ocultou, deixando apenas nu o sexo aureo—terrivel flôr de carne a estrebuchar agonias magentas...
Vencedora, tudo foi lume sobre ela...
E, outra vez desvendada—esbraseada e feroz, saltava agora por entre labaredas, rasgando-as: emmaranhando, possuindo, todo o fogo bebado que a cingia.
Mas finalmente, saciada após estranhas epilepsias, num salto prodigioso, como um meteoro—ruivo meteoro—ela veio tombar no lago que mil lampadas ocultas esbatiam de asul cendrado.
Então foi a apoteose:
Toda a agua asul, ao recebe-la, se volveu vermelha de brasas, encapelada, ardida pela sua carne que o fogo penetrara... E numa ansia de se extinguir, possessa, a fera nua mergulhou... Mas quanto mais se abismava, mais era lume ao seu redór...
... Até que por fim, num misterio, o fogo se apagou em oiro e, morto, o seu corpo flutuou heraldico sobre as aguas douradas—tranquilas, mortas tambem...
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