A luz normal regressara. Era tempo. Mulheres debatiam-se em ataques de histerismo; homens, de rostos congestionados, tinham gestos incoerentes...
As portas abriram-se e nós mesmos, perdidos, sem chapeus—encontrámo-nos na rua, afogueados, perplexos... O ar fresco da noite, vergastando-nos, fez-nos despertar; e como se chegassemos dum sonho que os três houvessemos sonhado—olhamo-nos inquietos, num espanto mudo.
Sim, a impressão fôra tão forte, a maravilha tão alucinadora, que não tivemos animo para dizer uma palavra.
Esmagados, aturdidos, cada um de nós voltou para sua casa...
Na tarde seguinte—ao acordar dum sono de onze horas—eu não acreditava já na estranha orgia: A Orgia do Fogo, como Ricardo lhe chamou depois.
Saí. Jantei.
Quando entrava no Café Riche, alguem me bateu no ombro:
—Então como passa o meu amigo? Vamos, as suas impressões?...
Era Ricardo de Loureiro.
Falámos largamente àcerca das extraordinarias coisas que presencearamos. E o poeta concluiu que tudo aquilo, mais lhe parecia hoje uma visão de onanista genial do que a simples realidade.