Quanto á americana fulva, não a tornei a ver. O proprio Gervasio deixou de falar nela. E, como se se tratasse dum misterio d'Alem a que valesse melhor não aludir—nunca mais nos referimos á noite admiravel.
Se a sua lembrança me ficou para sempre gravada, não foi por a ter vivido—mas sim porque, dessa noite, se originava a minha amizade com Ricardo de Loureiro.
Assim sucede com efeito. Referimos certos acontecimentos da nossa vida a outros mais fundamentais—e muitas vezes, em torno dum beijo, circula todo um mundo, toda uma humanidade.
De resto, no caso presente, que podia valer a noite fantastica em face do nosso encontro—desse encontro que marcou o principio da minha vida?
Ah! sem duvida amizade predestinada aquela que começava num scenario tão estranho, tão perturbador, tão dourado...
[II]
Decorrido um mês, eu e Ricardo eramos não só dois companheiros inseparaveis, como tambem dois amigos intimos, sinceros, entre os quais não havia mal-entendidos, nem quasi já segredos.
O meu convivio com Gervasio Vila-Nova cessara por completo. Mesmo, passado pouco, êle regressou a Portugal.
Ah! como era bem diferente, bem mais expontanea, mais cariciosa, a intimidade com o meu novo amigo! E como estavamos longe do Gervasio Vila-Nova que, a propoposito de coisa alguma, fazia declarações como esta:
—Sabe você, Lucio, não imagina a pena que eu tenho de que não gostem das minhas obras. (As suas obras eram esculturas sem pés nem cabeça—pois êle só esculpia torsos contorcidos, enclavinhados, monstruosos, onde porêm, de quando em quando, por alguns detalhes, se adivinhava um cinzel admiravel). Mas não pense que é por mim. Eu estou certo do que elas valem. É por êles, coitados, que não podem sentir a sua beleza.