Perante tal resposta, esbocei uma interrogação muda, a que o poeta volveu:

—Ah! sim, talvez não compreendesse... Ainda lhe não expliquei. Oiça: Desde criança que, pensando em certas situações possiveis numa existencia, eu, antecipadamente, me vejo ou não vejo nelas. Por exemplo: uma coisa onde nunca me vi, foi na vida—e diga-me se na realidade nos encontramos nela? Mas descendo a pequenos detalhes:

«A minha imaginação infantil sonhava, romanescamente construia, mil aventuras amorosas, que aliás todos vivem. Pois bem: nunca me vi ao fantasia-las, como existindo-as mais tarde. E até hoje eu sou aquele que em nenhum desses episodios gentis se encontrou. Não porque lhes fugisse... Nunca fugi de coisa alguma.

«Entretanto, na minha vida, houve certa situação exquisita, mesmo um pouco torpe. Ora eu lembrava-me muita vez de que essa triste aventura havia de ter um fim. E sabia dum muito natural. Nesse, contudo, nunca eu me figurava. Mas noutro qualquer. Outro qualquer, porêm, só podia dar-se por meu intermedio. E por meu intermedio—era bem claro—não se podia, não se devia dar. Passou-se tempo... Escuso de lhe dizer que foi justamente a «impossibilidade» que se realisou...

«Era um estudante distinto, e nunca me antevisionava com o meu curso concluido. Efectivamente um belo dia, de subito, sem razão, deixei a universidade... Fugi para Paris...

«Dentro da vida pratica tambem nunca me figurei. Até hoje, aos vinte e sete ânos, não consegui ainda ganhar dinheiro pelo meu trabalho. Felizmente não preciso... E nem mesmo cheguei a entrar nunca na vida, na simples Vida com V grande—na vida social, se prefere. É curioso: sou um isolado que conhece meio mundo, um desclassificado que não tem uma divida, uma nodoa—que todos consideram, e que entretanto em parte alguma é admitido... Está certo. Com efeito, nunca me vi «admitido» em parte alguma. Nos proprios meios onde me tenho embrenhado, não sei porquê senti-me sempre um estranho...

«E é terrivel; martirisa-me por vezes este meu condão. Assim se eu não vejo erguida certa obra cujo plano me entusiasma, é seguro que a não consigo lançar, e que depressa me desencanto da sua ideia—embora, no fundo, a considere admiravel.

«Emfim, para me entender melhor: esta sensação é semelhante, ainda que de sentido contrario, a uma outra em que provavelmente ouviu falar—que talvez mesmo conheça—a do já-visto. Nunca lhe sucedeu ter visitado pela primeira vez uma terra, um scenario, e—numa reminiscencia longingua, vaga, perturbadora—chegar-lhe a lembrança de que, não sabe quando nem aonde, já esteve naquela terra, já contemplou aquele scenario?...

«É possivel que o meu amigo não atinja o que ha de comum entre estas duas ideias. Não lhe sei explicar—contudo pressinto, tenho a certeza, que essa relação existe».

Respondi divagando, e o poeta acrescentou: