—Mas ainda lhe não disse o mais estranho. Sabe? É que de maneira alguma me concebo na minha velhice, bem como de nenhuma forma me vejo doente, agonisante. Nem sequer suicidado—segundo ás vezes me procuro iludir. E creia, é tão grande a minha confiança nesta superstição que—juro-lhe—se não fosse haver a certeza absoluta de que todos morremos, eu, não me «vendo» morto, não acreditaria na minha morte...
Sorri da boutade.
Vagos conhecidos entravam no Café onde tinhamos abancado. Sentaram-se junto de nós e, banal e facil, a conversa deslisou noutro plano.
Outras vezes tambem, Ricardo surgia-me com revelações estramboticas que lembravam um pouco os snobismos de Vila-Nova. Porêm nele, eu sabia que tudo isso era verdadeiro, sentido. Quando muito, sentido já como literatura. Efectivamente o poeta explicara-me, uma noite:
—Garanto-lhe, meu amigo, todas as ideias que lhe surjam nas minhas obras, por mais bizarras, mais impossiveis—são, pelo menos em parte, sinceras. Isto é: traduzem emoções que na realidade senti; pensamentos que na realidade me ocorreram sobre quaisquer detalhes da minha psicologia. Apenas o que pode suceder é que, quando elas nascem, já venham literatisadas...
Mas voltando ás suas revelações estramboticas:
Como gostassemos, em muitas horas, de nos embrenhar pela vida normal e de nos esquecer a nós proprios—frequentavamos bastante os teatros e os music-halls, numa ansia tambem de sermos agitados por esses meios intensamente contemporaneos, europeus e luxuosos.
Assim uma vez, no Olympia, assistiamos a umas danças de girls inglesas misturadas numa revista, quando Ricardo me perguntou:
—Diga-me, Lucio, você não é sujeito a certos medos inexplicaveis, destrambelhados?
Que não, só se muito vagamente—volvi.