—Pois comigo—tornou o artista—não acontece o mesmo. Emfim, quer saber? Tenho medo destas dançarinas.

Soltei uma gargalhada.

Ricardo prosseguiu:

—É que, não sei se reparou, em todos os music-halls tornaram-se agora moda estes bailados por ranchos de raparigas inglesas. Ora essas criaturinhas são todas iguais, sempre—vestidas dos mesmos fatos, com as mesmas pernas nuas, as mesmas feições tenues, o mesmo ar gentil. De maneira que eu em vão me esforço por considerar cada uma delas como uma individualidade. Não lhes sei atribuir uma vida—um amante, um passado; certos habitos, certas maneiras de ser. Não as posso destrinçar do seu conjunto: daí, o meu pavor. Não estou pôsando, meu amigo, asseguro-lhe.

«Mas não são estes só os meus medos. Tenho muitos outros. Por exemplo: o horror dos arcos—de alguns arcos triunfais e, sobretudo, de alguns velhos arcos de ruas. Não propriamente dos arcos—antes do espaço aereo que eles enquadram. E lembro-me de haver experimentado uma sensação misteriosa de pavor, ao descobrir no fim duma rua solitaria de não sei que capital, um pequeno arco ou, melhor, uma porta aberta sobre o infinito. Digo bem—sobre o infinito. Com efeito a rua subia e para lá do monumento começava, sem duvida, a descer. De modo que, de longe, só se via horizonte através desse arco. Confesso-lhe que me detive alguns minutos olhando-o fascinado. Assaltou-me um forte desejo de subir a rua até ao fim e averiguar para aonde ele deitava. Mas a coragem faltou-me... Fugi apavorado. E veja, a sensação foi tão violenta, que nem sei já em que triste cidade a oscilei...

«Quando era pequeno—ora, ainda hoje!—apavoravam-me as ogivas das catedrais, as abobadas, as sombras de altas colunas, os obeliscos, as grandes escadarias de marmore... De resto, toda a minha vida psicologica tem sido até agora a projecção dos meus pensamentos infantis—ampliados, modificados, mas sempre no mesmo sentido, na mesma ordem: apenas em outros planos.

«E por ultimo, ainda a respeito de medos: Assim como me assustam alguns espaços vazios emmoldurados por arcos—tambem me inquieta o ceu das ruas, estreitas e de predios altos, que de subito se partem em curvas apertadas.»

O seu espirito estava seguramente predisposto para a bizarria, essa noite, pois ainda me fez estas exquisitas declarações á saída do teatro:

—Meu caro Lucio, vai ficar muito admirado, mas garanto-lhe que não foi tempo perdido o que passei ouvindo essa revista chocha. Achei a razão fundamental do meu sofrimento. Você recorda-se duma capoeira de galinhas que apareceu em scena? As pobres aves queriam dormir. Metiam os bicos debaixo das asas, mas logo acordavam assustadas pelos jorros dos projectores que iluminavam as «estrelas», pelos saltos do compadre... Pois como esses pobres bichos, tambem a minha alma anda estremunhada—descobri em frente dêles. Sim, a minha alma quer dormir e, minuto a minuto, a veem despertar jorros de luz, estrepitosas vozearias: grandes ansias, ideias abrasadas, tumultos de aspirações—aureos sonhos, cinzentas realidades... Sofreria menos se ela nunca pudesse adormecer. Com efeito, o que mais me exacerba esta tortura infernal é que, em verdade, a minha alma chega muitas vezes a pegar no sono, a fechar os olhos—perdôe a frase estrambotica. Mal os cerra, porêm, logo a zurzem—e de novo acorda perdida numa agonia estonteada...

Mais tarde, relembrando-me esta constatação, ajuntara: