—O meu sofrimento moral, ainda que sem razões, tem aumentado tanto, tanto, estes ultimos dias, que eu hoje sinto a minha alma fisicamente. Ah! é horrivel! A minha alma não se angustía apenas, a minha alma sangra. As dôres morais transformam-se-me em verdadeiras dôres fisicas, em dôres horriveis, que eu sinto materialmente—não no meu corpo, mas no meu espirito. É muito dificil, concordo, fazer compreender isto a alguem. Entretanto, acredite-me; juro-lhe que é assim. Eis pelo que eu lhe dizia a outra noite que tinha a minha alma estremunhada. Sim, a minha pobre alma anda morta de sono, e não a deixam dormir—tem frio, e não a sei aquecer! Endureceu-me toda, toda! secou, anquilosou-se-me; de forma que move-la—isto é: pensar—me faz hoje sofrer terriveis dôres. E quanto mais a alma me endurece, mais eu tenho ansia de pensar! Um turbilhão de ideias—loucas ideias!—me silva a desconjunta-la, a arrepanha-la, a rasga-la, num martirio alucinante! Até que um dia—oh! é fatal—ela se me partirá, voará em estilhaços... A minha pobre alma! a minha pobre alma!...
Em tais ocasiões os olhos de Ricardo cobriam-se dum veu de luz. Não brilhavam: cobriam-se dum veu de luz. Era muito estranho, mas era assim.
Divagando ainda sobre as dores fisicas do seu espirito; num tom de blague que raramente tomava, o poeta desfechou-me uma tarde, de subito:
—Tenho ás vezes tanta inveja das minhas pernas... Porque uma perna não sofre. Não tem alma, meu amigo, não tem alma!...
Largas horas, solitario, eu meditava nas singularidades do artista, a querer concluir alguma coisa. Mas o certo é que nunca soube descer uma psicologia, de maneira que chegava só a esta conclusão: êle era uma criatura superior—genial, perturbante. Hoje mesmo, volvidos longos ânos, é essa a minha unica certeza, e eis pelo que eu me limito a contar sem ordem—á medida que me vão recordando—os detalhes mais caracteristicos da sua psicologia, como meros documentos na minha justificação.
Factos, apenas factos—avisei logo de principio.
Compreendiam-se perfeitamente as nossas almas—tanto quanto duas almas se podem compreender, E, todavia, eramos duas criaturas muito diversas. Raros traços comuns entre os nossos caracteres. Mesmo, a bem dizer, só numa coisa iguais: no nosso amor por Paris.
—Paris! Paris!—exclamava o poeta—Porque o amo eu tanto? Não sei... Basta lembrar-me que existo na capital latina, para uma onda de orgulho, de jubilo e ascensão, se encapelar dentro de mim. É o unico ópio loiro para a minha dôr—Paris!
«Como eu amo as suas ruas, as suas praças, as suas avenidas! Ao recorda-las longe delas—em miragem nimbada, todas me surgem num resvalamento arqueado que me trespassa em luz. E o meu proprio corpo, que elas vararam, as acompanha no seu rodopio.
«De Paris, amo tudo com igual amor: os seus monumentos, os seus teatros, os seus boulevards, os seus jardins, as suas arvores... Tudo nele me é heraldico, me é liturgico.