«E a minha vida, livre de estranhezas, é no emtanto uma vida bizarra—mas duma bizarria ás avessas. Com efeito a sua singularidade encerra-se, não em conter elementos que se não encontram nas vidas normais—mas sim em não conter nenhum dos elementos comuns a todas as vidas. Eis pelo que nunca me sucedeu coisa alguma. Nem mesmo o que sucede a toda a gente. Compreende-me?»

Eu compreendia sempre. E êle fazia-me essa justiça. Por isso as nossas conversas d'alma se prolongavam em geral até de manhã; passeando nas ruas desertas, sem sentirmos frio nem cansaço, numa intoxicação mutua e arruivada.

Em horas mais tranquilas, Ricardo punha-se-me a falar da suavidade da vida normal. E confessava-me:

—Ah, quantas vezes isolado em grupos de conhecidos banais, eu não invejei os meus camaradas... Lembro-me tanto de certo jantar no Leão d'Ouro ... numa noite chuvosa de dezembro... Acompanhavam-me dois actores e um dramaturgo. Sabe? O Roberto Dávila, o Carlos Mota, o Alvares Cezimbra... Eu diligenciara, num esforço, descer até êles. Por ultimo, consegui iludir-me. Fui feliz, instantes, creia... E o Carlos Mota, pedia a minha colaboração para uma das suas operetas... Carlos Mota, o autor da Videirinha, o grande sucesso da Trindade... Bons rapazes! bons rapazes... Ai, não ser como êles...

«Porque afinal essa sua vida—«a vida de todos os dias»—é a unica que eu amo. Simplesmente não a posso existir... E orgulho-me tanto de não a poder viver ... orgulho-me tanto de não ser feliz... Cá estamos: a maldita literatura...»

E, depois duma breve pausa:

—Noutros tempos, em Lisboa, um meu companheiro intimo, hoje já morto, alma ampla e intensa de artista requintado—admirava-se de me ver acamaradar com certas creaturas inferiores. É que essas andavam na vida, e eu aprazia-me com elas numa ilusão. As minhas eternas incoerencias! Vocês, os verdadeiros artistas, as verdadeiras grandes almas—eu sei—nunca saem, nem pretendem sair, do vosso circulo de ouro—nunca lhes veem desejos de baixar á vida. É essa a vossa dignidade. E fazem bem. São muito mais felizes... Pois eu sofro duplamente, porque vivo no mesmo circulo dourado e, entretanto, sei-me agitar cá em baixo...

—Ao contrario, eis pelo que você é maior—comentava eu—Esses a quem se refere, se não ousam descer, é por adivinharem que, se se misturassem á existencia quotidiana, ela os absorveria, sossobrando o seu genio de envolta com a banalidade. São fracos. E esse pressentimento, instintivamente os salva. Emquanto que o meu amigo pode arriscar o seu genio por entre mediocres. É tão grande que nada o sujará.

—Quimera! Quimera—volvia o poeta—Sei lá o que sou... Em todo o caso, olhe que é lamentavel a banalidade dos outros... Como a «maioria» se contenta com poucas ansias, poucos desejos espirituais, pouca alma... Oh! é desolador!... Um drama de Jorge Ohnet, um romance de Bourget, uma opera de Verdi, uns versos de João de Deus ou um poema de Tomás Ribeiro—chegam bem para encher o seu ideal. Que digo? Isto mesmo são já requintes de almas superiores. As outras—as verdadeiramente normais—ora ... ora ... deixemo-nos de devaneios, contentam-se com as obscenidades lantejouladas de qualquer baixo-revisteiro sem gramatica...

«A maioria, meu caro, a maioria ... os felizes... E daí, quem sabe se êles é que têm razão ... se tudo o mais será frioleira...