«Em suma ... em suma...»

Correram meses, seguindo sempre entre nós o mesmo afecto, a mesma camaradagem.

Uma tarde de Domingo—recordo-me tão bem—iamos em banalidade Avenida dos Campos Eliseos acima, misturados na multidão, quando a sua conversa resvalou para um campo, que até aí o poeta nunca atacara, positivamente:

—Ah! como se respira vida, vida intensa e sadia, nestes domingos de Paris, nestes maravilhosos Domingos!... É a vida simples, a vida util, que se escoa em nossa face. Horas que nos não pertencem—etereos sonhadores de beleza, roçados de Alem, ungidos de Vago... Orgulho! Orgulho! E emtanto como valera mais se fossemos da gente-media que nos rodeia. Teriamos, pelos menos no espirito, a suavidade e a paz. Assim temos só a luz. Mas a luz cega os olhos... Somos todos alcool, todos alcool!—alcool que nos esvai em lume que nos arde!

«E é pela agitação desta cidade imensa, por esta vida atual, quotidiana, que eu amo o meu Paris numa ternura loira. Sim! Sim! Digo bem, numa ternura—uma ternura ilimitada. Eu não sei ter afectos. Os meus amores foram sempre ternuras... Nunca poderia amar uma mulher pela alma—isto é: por ela propria. Só a adoraria pelos enternecimentos que a sua gentileza me despertasse: pelos seus dedos trigueiros a apertarem os meus numa tarde de sol, pelo timbre subtil da sua voz, pelos seus rubores—e as suas gargalhadas ... as suas correrias...

«Para mim, o que pode haver de sensivel no amor, é uma saia branca a sacudir o ar, um laço de setim que mãos esguias ennastram, uma cintura que se verga, uma madeixa perdida que o vento desfez, uma canção ciciada em labios de ouro e de vinte anos, a flôr que a boca duma mulher trincou...

«Não, nem é sequer a formosura que me impressiona. É outra coisa mais vaga—imponderavel, translucida: A gentileza. Ai, e como eu a vou descobrir em tudo, em tudo—a gentileza... Daí, uma ansia estonteada, uma ansia sexual, de possuir vozes, gestos, sorrisos, aromas e côres!...

«... Lume doido! Lume doido!... Devastação! Devastação!...»

Mas logo, serenando:

—A boa gente que aí vai, meu querido amigo, nunca teve destas complicações. Vive. Nem pensa... Só eu não deixo de pensar... O meu mundo interior ampliou-se—volveu-se infinito, e hora a hora se excede! É horrivel. Ah! Lucio, Lucio! tenho medo—medo de sossobrar, de me extinguir no meu mundo interior, de desaparecer da vida, perdido nele...