«... E aí tem o assunto para uma das suas novelas: um homem que, á força de se concentrar, desaparecesse da vida—imigrado no seu mundo-interior...
«Não lhe digo eu? A maldita literatura...»
Sem motivos nenhuns, livre de todas as preocupações, sentia-me emtanto exquisitamente disposto, essa tarde. Um calafrio me arripiava toda a carne—o calafrio que sempre me varara nas horas culminantes da minha vida.
E Ricardo, de novo, apontando-me uma soberba vitória que dois esplendidos cavalos negros tiravam:
—Ah! como eu me trocaria pela mulher linda que ali vai... Ser belo! ser belo! ... ir na vida fulvamente ... ser pagem na vida... Haverá triunfo mais alto?...
«A maior gloria da minha existencia não foi—ah! não julgue que foi—qualquer elogio sobre os meus poemas, sobre o meu genio. Não. Foi isto só; eu lhe conto:
«Uma tarde de abril, ha três anos, caminhava nos grandes boulevards, solitario como sempre. De subito, uma gargalhada soou perto de mim... Tocaram-me no ombro... Não dei atenção... Mas logo a seguir me puxaram por um braço, garotamente, com o cabo duma sombrinha... Voltei-me... Eram duas raparigas... duas raparigas gentis, risonhas... Áquela hora, duas costureiras—decerto—saídas dos ateliers da rua da Paz. Tinham embrulhos nas mãos...
«E uma delas, a mais audaciosa:
«—Sabe que é um lindo rapaz?
«Protestei... E fomos andando juntos, trocando palavras banais... (Acredite que meço muito bem todo o ridiculo desta confidencia).