«Á esquina do faubourg Poissonnière, despedi-me: devia-me encontrar com um amigo—garanti. Efectivamente, num desejo de perversidade, eu resolvera pôr termo á aventura. Talvez receoso de que, se ela se prolongasse, me desiludisse. Não sei...
«Separámo-nos...
«Essa tarde foi a mais bela recordação da minha vida!...
«Meu Deus! Meu Deus! Como em vez deste corpo dobrado, este rosto contorcido—eu quisera ser belo, esplendidamente belo! E nessa tarde, fui-o por instantes, acredito... É que vinha de escrever alguns dos meus melhores versos. Sentia-me orgulhoso, admiravel... E a tarde era asul, o boulevard ia lindissimo... Depois, tinha um chapeu petulante ... ondeava-se-me na testa uma madeixa juvenil...
«Ah! como vivi semanas, semanas, da pobre saudade ... que ternura infinita me desceu para essa rapariguinha que nunca mais encontrei—que nunca mais poderia encontrar porque, na minha alegria envaidecida, nem sequer me lembrara de ver o seu rosto... Como lhe quero... Como lhe quero... Como a abençoo... Meu amor! meu amor!...»
E, numa transfiguração—todo aureolado pelo brilho intenso, melodioso, dos seus olhos portugueses—Ricardo de Loureiro erguia-se realmente belo, esse instante...
Aliás, ainda hoje ignoro se o meu amigo era ou não era formoso. Todo de incoerencias, tambem a sua fisionomia era uma incoerencia: Por vezes o seu rosto esguio, macerado—se o viamos de frente, parecia-nos radioso. Mas de perfil já não sucedia o mesmo... Contudo, nem sempre: o seu perfil, por vezes, tambem era agradavel ... sob certas luzes ... em certos espelhos...
Entretanto, o que mais o prejudicava, era sem duvida o seu corpo que êle despresava, deixando-o «cair de si», segundo a frase extravagante, mas muito propria, de Gervasio Vila-Nova.
Os retratos que existem hoje do poeta, mostram-no belissimo, numa aureola de genio. Simplesmente, não era essa a expressão do seu rosto. Sabendo tratar-se dum grande artista, os fotografos e os pintores ungiram-lhe a fronte duma expressão nimbada que lhe não pertencia. Convem desconfiar sempre dos retratos dos grandes homens...
—Ah! meu querido Lucio—tornou ainda o poeta—como eu sinto a Victoria duma mulher admiravel, estiraçada sobre um leito de rendas, olhando a sua carne toda nua ... esplendida ... loira d'alcool! A carne feminina—que apoteose! Se eu fosse mulher, nunca me deixaria possuir pela carne dos homens—tristonha, sêca, amarela: sem brilho e sem luz... Sim! num entusiasmo espasmodico, sou todo admiração, todo ternura, pelas grandes debochadas que só emmaranham os corpos de marmore com outros iguais aos seus—femininos tambem; arruivados, sumptuosos... E lembra-me então um desejo perdido de ser mulher—ao menos, para isto: para que, num encantamento, podesse olhar as minhas pernas nuas, muito brancas, a escoarem-se, frias, sob um lençol de linho...