Ao falar-nos, brilhava ainda mais a sua chama. Era um conversador admiravel, adoravel nos seus erros, nas suas ignorancias, que sabia defender intensamente, sempre vitorioso; nas suas opiniões revoltantes e belissimas, nos seus paradoxos, nas suas blagues. Uma criatura superior—ah! sem duvida. Uma destas criaturas que se nos enclavinham na memoria—e nos perturbam, nos obcecam. Todo fôgo! todo fôgo!
Entretanto, se o examinavamos com a nossa inteligencia, e não apenas com a nossa vibratilidade, logo viamos que, infelizmente, tudo se cifrava nessa aureola, que o seu genio—talvez por demasiado luminoso—se consumiria a si proprio, incapaz de se condensar numa obra—disperso, quebrado, ardido. E assim aconteceu, com efeito. Não foi um falhado porque teve a coragem de se despedaçar.
A uma criatura como aquela não se podia ter afecto, embora no fundo êle fosse um excelente rapaz; mas ainda hoje evoco com saudade as nossas palestras, as nossas noites de café—e chego a convencer-me que, sim, realmente, o destino de Gervasio Vila-Nova foi o mais belo; e êle um grande, um genial artista.
Tinha muitas relações no meio artistico o meu amigo. Literatos, pintores, musicos, de todos os países. Uma manhã, entrando no meu quarto, desfechou-me:
—Sabe, meu caro Lucio, apresentaram-me ontem uma americana muito interessante. Calcule, é uma mulher riquissima que vive num palacio que propositadamente fez construir no local onde existiam dois grandes predios que ela mandou deitar abaixo—isto, imagine você, em plena Avenida do Bosque de Bolonha! Uma mulher linda. Nem calcula. Quem ma apresentou foi aquele pintor americano dos oculos asuis. Recorda-se? Eu não sei como êle se chama... Podemo-la encontrar todas as tardes no Pavilhão de Armenonville. Costuma ir lá tomar chá. Quero que você a conheça. Vai ver. Interessantissima!
No dia seguinte—uma esplendida tarde de inverno, tépida, cheia de sol e céu asul—tomando um fiacre, lá nos dirigimos ao grande restaurante. Sentámo-nos; mandou-se vir chá... Dez minutos não tinham decorrido, quando Gervasio me tocava no braço. Um grupo de oito pessoas entrava no salão—três mulheres, cinco homens. Das mulheres, duas eram loiras, pequeninas, de péle de rosas e leite; de corpos harmoniosos, sensuais—identicas a tantas inglesas adoraveis. Mas a outra, em verdade, era qualquer coisa de sonhadamente, de misteriosamente belo. Uma criatura alta, magra, dum rosto esguio de pele dourada—e uns cabelos fantasticos, dum ruivo incendiado, alucinante. A sua formosura era uma destas belezas que inspiram receio. Com efeito, mal a vi, a minha impressão foi de medo—dum medo semelhante ao que experimentamos em face do rosto dalguem que praticou uma acção enorme e monstruosa.
Ela sentou-se em ruido; mas logo, vendo-nos, correu estendendo as mãos para o escultor:
—Meu caro, muito prazer em o encontrar... Falaram-me ontem muito bem de si... Um seu compatriota ... um poeta ... M. de Loureiro, julgo...
Foi dificil adivinhar o apelido português entre a pronuncia mesclada.
—Ah... Não o sabia em Paris—murmurou Gervasio.