E para mim, depois de me haver apresentado á estrangeira:
—Você conhece? Ricardo de Loureiro, o poeta das Brasas...
Que nunca lhe falara, que apenas o conhecia de vista e, sobretudo, que admirava intensamente a sua obra.
—Sim ... não discuto isso ... você bem vê, para mim já essa arte passou. Não me pode interessar... Leia-me os selvagens, homem, que diacho!...
Era uma das scies de Gervasio Vila-Nova: Elogiar uma pseudo-escola literaria da ultima-hora—o Selvagismo, cuja novidade residia em os seus livros serem impressos sobre diversos papeis e com tintas de varias côres, numa estrambotica disposição tipografica. Tambem—e eis o que mais entusiasmava o meu amigo—os poetas e prosadores selvagens, abolindo a ideia, «esse escarro», traduziam as suas emoções unicamente em jogo silabico, por onomatopeias raspadas, bizarras: criando mesmo novas palavras que coisa alguma significavam e cuja beleza, segundo êles, residia justamente em não significarem coisa alguma... De resto, até aí, parece que apenas se publicara um livro dessa escola. Certo poeta russo de nome arrevesado. Livro que Gervasio seguramente não lera, mas que todavia se não cansava de exalçar, gritando-o assombroso, genial...
A mulher estranha chamou-nos para a sua mesa, e apresentou-nos os seus companheiros que ainda não conheciamos: o jornalista Jean Lamy, do Figaro, o pintor holandês van Derk e o escultor inglês Tomás Westwood. Os dois outros eram o pintor americano dos oculos asuis e o inquietante viscondezinho de Naudières, louro, diafano, maquilado.
Quanto ás duas raparigas, limitou-se apontando-nos:
—Jenny e Dora.
A conversa logo se entabolou ultra-civilisada e banal. Falou-se de modas, discutiu-se teatro e music-hall, com muita arte á mistura. E quem mais se distinguiu, quem em verdade até exclusivamente falou, foi Gervasio. Nós limitavamo-nos—como acontecia com todos, perante êle, perante a sua intensidade—a ouvir, ou, quando muito, a protestar. Isto é: a dar ensejo para que êle brilhasse...
—Sabe, meu querido Lucio—uma vez contara-me o escultor—o Fonseca diz que é um oficio acompanhar-me. E uma arte dificil, fatigante. É que eu falo sempre; não deixo o meu interculotor repousar. Obrigo-o a ser intenso, a responder-me... Sim, concordo que a minha companhia seja fatigante. Vocês têem razão.