Eis pelo que as minhas reminiscencias de toda essa noite são as mais tenues. Entretanto, durante ela, creio que nada de singular aconteceu. Jantou-se; conversou-se largamente, por certo...

Á meia-noite despedi-me.

Mal cheguei ao meu quarto, deitei-me, adormeci... E foi só então que me tornaram os sentidos. Efectivamente, ao adormecer, tive a sensação estonteada de acordar dum longo desmaio, regressando agora á vida... Não posso descrever melhor esta incoerencia, mas foi assim.

(E, entre parenteses, convem-me acentuar que meço muito bem a estranheza de quanto deixo escrito. Logo no principio referi que a minha coragem seria a de dizer toda a verdade, ainda quando ela não fosse verosimil.)

A partir daí, comecei frequentando amiudadas noites a casa de Ricardo. As sensações bizarras tinham-me desaparecido por completo, e eu via agora nitidamente a sua esposa.

Era uma linda mulher loira, muito loira, alta, escultural—e a carne mordorada, dura, fugitiva. O seu olhar asul perdia-se de infinito, nostalgicamente. Tinha gestos nimbados e caminhava nuns passos leves, silenciosos—indecisos, mas rapidos. Um rosto formosissimo, duma beleza vigorosa, talhado em oiro. Mãos inquietantes de esguias e palidas.

Sempre triste—numa tristeza maceradamente vaga—mas tão gentil, tão suave e amoravel, que era sem duvida a companheira propicia, ideal, dum poeta.

Cheguei a invejar o meu amigo...

Durante seis meses a nossa existencia foi a mais simples, a mais serena. Ah! esses seis meses constituiram em verdade a unica epoca feliz, sem nevoas, da minha vida...

Raros dias se passavam em que não estivesse com Ricardo e Marta. Quasi todas as noites nos reuniamos em sua casa, um pequeno grupo de artistas: Eu, Luís de Monforte, o dramaturgo da Gloria; Aniceto Sarzedas, o verrinoso critico; dois poetas de vinte ânos cujos nomes olvidei e—sobretudo—o conde Sergio Warginsky, adido da legação da Russia, que nós conheceramos vagamente em Paris e que eu me admirava de encontrar agora assiduo frequentador da casa do poeta. Ás vezes, com menor frequencia, apareciam tambem Raul Vilar e um seu amigo—triste personagem tarado que hoje escreve novelas torpes desvendando as vidas intimas dos seus companheiros, no intuito (justifica-se) de apresentar casos de psicologias estranhas e assim fazer uma arte perturbadora, intensa e original; no fundo apenas falsa e obscena.