Os serões corriam lisongeiros entre conversas intelectuais—vincadamente literarias—onde a nota humoristica era dada em abundancia por Aniceto Sarzedas, nos seus terriveis ereintements contra todos os contemporaneos.
Marta misturava-se por vezes nas nossas discussões, e evidenceava-se duma larga cultura, duma finissima inteligencia. Curioso que a sua maneira de pensar nunca divergia da do poeta. Ao contrario: integrava-se sempre com a dêle reforçando, aumentando em pequenos detalhes as suas teorias, as suas opiniões.
O russo, esse exprimia a sensualidade naquele grupo de artistas—não sei porquê, eu tinha esta impressão.
Era um belo rapaz de vinte e cinco ânos, Sergio Warginsky. Alto e elançado, o seu corpo evocava o de Gervasio Vila-Nova que, ha pouco, brutalmente se suicidara, arremessando-se para debaixo dum comboio. Os seus labios vermelhos, petulantes, amorosos, guardavam uns dentes que as mulheres deveriam querer beijar—os cabelos dum loiro arruivado, caíam-lhe sobre a testa em duas madeixas longas, arqueadas. Os seus olhos de penumbra aurea, nunca os despregava de Marta—devia-me lembrar mais tarde. Emfim, se alguma mulher havia entre nós, parecia-me mais ser êle do que Marta. (Esta sensação bizarra, aliás, só depois é que eu reconheci que a tivera. Durante este periodo, pensamentos alguns destrambelhados me vararam o espirito).
Sergio tinha uma voz formosíssima—sonora, vibrante, esbraseada. Com a predisposição dos russos para as linguas estrangeiras, fazendo um pequeno esforço, pronunciava o português sem o mais ligeiro acento. Por isso Ricardo se aprazia muito em lhe mandar ler os seus poemas que, vibrados por aquela garganta adamantina, se sonorisavam em aureola.
De resto era evidente que o poeta dedicava uma grande simpatia ao russo. A mim, pelo contrario, Warginsky só me irritava—sobretudo talvez pela sua beleza excessiva—chegando eu a não poder retrair certas impaciencias quando êle se me dirigia.
Entretanto bem mais agradaveis me eram ainda as noites que passava apenas na companhia de Ricardo e de Marta—mesmo quasi só na companhia de Marta pois, nessas noites, muitas vezes o poeta se ausentava para o seu gabinete de trabalho.
Longas horas me esquecia então conversando com a esposa do meu amigo. Esperimentavamos um pelo outro uma viva simpatia—era indubitavel. E nessas ocasiões é que eu melhor podia avaliar toda a intensidade do seu espirito.
Emfim, a minha vida desensombrara-se. Certas circunstancias materiais muito enervantes tinham-se-me modificado lisongeiramente. Ao meu ultimo volume, recem-saído do prelo, estava-o acolhendo um magnifico sucesso. O proprio Sarzedas lhe dedicara um grande artigo elogioso e lucido!...
Por sua parte, Ricardo só me parecia feliz no seu lar.