Em suma, tinhamos aportado. Agora sim: viviamos.
Decorreram meses. Chegara o verão. Haviam cessado as reuniões noturnas em casa do artista. Luís de Monforte retirara-se para a sua quinta; Warginsky partira com três meses de licença para S. Petersburgo. Os dois poetazinhos tinham-se perdido em Trás-os-Montes. Só, de vez em quando—com o seu monóculo e o seu eterno sobretudo—surgia Aniceto Sarzedas, queixando-se do reumatico e do ultimo volume que aparecera.
Depois de projectar uma viagem á Noruega, Ricardo decidiu ficar por Lisboa. Queria trabalhar muito esse verão, concluir o seu volume Diadema, que devia ser a sua obra-prima. E francamente, o melhor para isso era permanecer na capital. Marta estando de acordo, assim sucedeu.
Foi neste tempo que a intimidade com a mulher do meu amigo mais se estreitou—intimidade onde nunca a sombra dum desejo se viera misturar, embora passassemos largo tempo juntos. Com efeito, numa ansia de trabalho, Ricardo, após o jantar, logo nos deixava, encerrando-se no seu gabinete até ás onze horas, meia noite...
As nossas palavras, de resto, apesar da nossa intimidade, somavam-se apenas numa conversa longinqua em que não apareciam as nossas almas. Eu expunha-lhe os enredos de futuras novelas, sobre as quais Marta dava a sua opinião—lia-lhe as minhas paginas recem-escritas, sempre numa camaradagem puramente intelectual.
Até aí nunca me ocorrera qualquer ideia misteriosa sobre a companheira do poeta. Ao contrario: ela parecia-me bem real, bem simples, bem certa.
Mas ai, de subito, uma estranha obsessão começou no meu espirito...
Como que acordado bruscamente dum sonho, uma noite achei-me perguntando a mim proprio:
—Mas no fim de contas quem é esta mulher?...
Pois eu ignorava tudo a seu respeito. Donde surgira? Quando a encontrara o poeta? Misterio... Em face de mim nunca ela fizera a minima alusão ao seu passado. Nunca me falara dum parente, duma sua amiga. E, por parte de Ricardo, o mesmo silencio, o mesmo inexplicavel silencio...