Sim, em verdade, tudo aquilo era muito singular. Como a conhecera o artista—ele, que não tinha relações algumas, que nem mesmo frequentava as casas dos seus raros amigos—e como aceitara a ideia do matrimonio, que tanto lhe repugnava?... O matrimonio? Mas seriam êles casados?... Nem sequer disso eu podia estar seguro. Lembrava-me numa reminiscencia vaga: na sua carta o meu amigo não me escrevera propriamente que se tinha casado. Isto é: dizia-mo talvez, mas sem empregar nunca uma palavra decisiva... Aludindo a sua mulher, dizia sempre Marta—reparava agora tambem.
E foi então que me ocorreu outra circunstancia ainda mais estranha, a qual me acabou de perturbar: essa mulher não tinha recordações; essa mulher nunca se referira a uma saudade da sua vida. Sim; nunca me falara dum sitio onde estivera, dalguem que conhecera, duma sensação que sentira—em suma, da mais pequena coisa: um laço, uma flor, um véu...
De maneira que a realidade inquietante era esta: aquela mulher erguia-se aos meus olhos como se não tivesse passado—como se tivesse apenas um presente!
Em vão tentei expulsar do espirito as ideias afogueadas. Mais e mais cada noite elas se me enclavinhavam, focando-se hoje toda a minha agonia em desvendar o misterio.
Nas minhas conversas com Marta esforçava-me por obriga-la a descer no seu passado. Assim lhe perguntava naturalmente se conhecia tal cidade, se conservava muitas reminiscencias da sua infancia, se tinha saudades desta ou doutras epocas da sua vida... Mas ela—naturalmente tambem, suponho—respondia iludindo as minhas perguntas; mais: como se não me percebesse... E, pela minha parte, num enleio injustificado, faltava-me sempre a coragem para insistir—perturbava-me como se viesse de cometer uma indelicadeza.
Para a minha ignorancia ser total, eu nem mesmo sabia que sentimentos ligavam os dois esposos. Amava-a realmente o artista? Sem duvida. Emtanto nunca mo dissera, nunca se me referira a esse amor, que devia existir com certeza. E, pelo lado de Marta, igual procedimento—como se tivessem pejo de aludir ao seu amor.
Um dia, não me podendo conter—vendo que da sua companheira detalhe algum obtinha—decidi-me a interrogar o proprio Ricardo.
E, num esforço, de subito:
—É verdade—ousei—você nunca me contou o seu romance...
No mesmo momento me arrependi. Ricardo empalideceu; murmurou quaisquer palavras e, logo, mudando de assunto, se pôs a esboçar-me o plano dum drama em verso que queria compôr.