Entretanto a minha ideia fixa volvera-se-me num perfeito martirio, e assim—quer junto de Marta, quer junto do poeta—eu tentei por mais duma vez ainda suscitar alguma luz. Mas sempre embalde.

Contudo o mais singular da minha obsessão, ia-me esquecendo de o dizer:

Não era com efeito o misterio que encerrava a mulher do meu amigo que, no fundo, mais me torturava. Era antes esta incerteza: a minha obsessão seria uma realidade, existiria realmente no meu espirito; ou seria apenas um sonho que eu tivera e não lograra esquecer, confundindo-o com a realidade?

Todo eu agora era duvidas. Em coisa alguma acreditava. Nem sequer na minha obsessão. Caminhava na vida entre vestigios, chegando mesmo a recear enlouquecer nos meus momentos mais lucidos...

Voltara o inverno, e com êle, os serões artisticos em casa do poeta, sucedendo aos dois vates perdidos definitivamente em Trás-os-Montes, um vago jornalista com pretensões a dramaturgo e Narciso do Amaral, o grande compositor. Sergio Warginsky, loiro como nunca, sempre o mais assiduo e o mais irritante.

A prova de que o meu espirito andava doente, muito doente, tive-a uma noite dessas—uma noite chuvosa de dezembro...

Narciso do Amaral decidira-se emfim a executar-nos o seu concertante Alem, que terminara ha muitas semanas e que até hoje só êle conhecia.

Sentou-se ao piano. Os seus dedos feriram as teclas...

Automaticamente os meus olhos se tinham fixado na esposa de Ricardo, que se assentara num fauteuil ao fundo da casa, em um recanto, de maneira que só eu a podia ver olhando ao mesmo tempo para o pianista.

Longe dela, em pé, na outra extremidade da sala, permanecia o poeta.