E então, pouco a pouco, á medida que a musica aumentava de maravilha, eu vi—sim, na realidade vi!—a figura de Marta dissipar-se, esbater-se; som a som, lentamente, até que desapareceu por completo. Em face dos meus olhos abismados eu só tinha agora o fauteuil vasio...

* * * * * * * *

Fui de subito acordado da miragem pelos aplausos dos auditores que a musica genial transportara, fizera fremir, quasi delirar...

E, velada, a voz de Ricardo alteou-se:

—Nunca vibrei sensações mais intensas do que perante esta musica admiravel. Não se pode exceder a emoção angustiante, perturbadora, que ela suscita. São véus rasgados sobre o alem—o que a sua harmonia sossobra... Tive a impressão de que tudo quanto me constitue em alma, se precisou condensar para a estremecer—se reuniu dentro de mim, ansiosamente, em um globo de luz...

Calou-se. Olhei...

Marta regressara. Erguia-se do fauteuil nesse instante...

Ao dirigir-me para minha casa debaixo duma chuva miudinha, impertinente—sentia-me silvado por um turbilhão de garras d'ouro e chama.

Tudo resvalava ao meu redór numa bebedeira de misterio, até que—num esforço de lucidez—consegui atribuir a visão fantastica á partitura imortal.

De resto eu apenas sabia que se tratara duma alucinação, porque era impossivel explicar o estranho desaparecimento por qualquer outra forma. Ainda que na realidade o seu corpo se dissolvesse—devido aos lugares que ocupávamos na sala—presumivelmente só eu o teria notado. Com efeito, bem pouco natural seria que, em face de musica tão sugestionadora, alguem podesse desviar os olhos do seu admiravel executante...