E, no mesmo instante, eu decidi não fugir mais do precipicio; entregar-me á corrente—deixar-me ir até onde ela me levasse. Com esta resolução voltou-me toda a lucidez.

Acompanhei Ricardo. Ao jantar falou-se só da minha «madureza», e o primeiro a blaguea-la fui eu proprio.

Marta estava linda essa noite. Vestia uma blusa negra de crépe da China, amplamente decotada. A saia muito cingida deixava pressentir a linha escultural das pernas que uns sapatos muito abertos mostravam quasi nuas, revestidas por meias de fios metalicos, entrecruzados em largos losangos por onde a carne surgia...

E pela primeira vez, ao jantar, me sentei a seu lado, pois o artista recusou o seu lugar do costume pretextando uma corrente de ar...

O que foram as duas semanas que sucederam a esta noite, não sei. Emtanto a minha lucidez continuava. Nenhuma ideia estranha feria o meu espirito, nenhuma hesitação, nenhum remorso... E contudo sabia-me arrastado, deliciosamente arrastado, em uma nuvem de luz que me encerrava todo e me aturdia os sentidos—mas não deixava ver, embora eu tivesse a certeza de que êles me existiam bem lucidos. Era como se houvesse guardado o meu espirito numa gaveta...

* * * * * * * *

Foi duas noites após o meu regresso que as suas mãos, naturalmente, pela primeira vez encontraram as minhas...

Ah! como as horas que passavamos solitarios eram hoje magentas... As nossas palavras tinham-se volvido—pelo menos julgo que se tinham volvido—frases sem nexo, sob as quais ocultavamos aquilo que sentiamos e não queriamos ainda desvendar, não por qualquer receio, mas sim, unicamente, num desejo perverso de sensualidade.

Tanto que uma noite, sem me dizer coisa alguma, ela pegou nos meus dedos e com eles acariciou as pontas dos seios—a acera-las, para que enfolassem agrestemente o tecido ruivo do kimono de seda.

E cada noite era uma nova voluptuosidade silenciosa.