As suas antigas complicações d'alma, essas, mal eu chegara a Lisboa logo ele me dissera que já não o desolavam—pois que, nesse sentido, a sua vida se limpara.

E—facto curioso—justamente depois de Marta ser minha amante é que tinham cessado todas as nuvens, é que eu via melhor a sua boa disposição—o seu orgulho, o seu jubilo, o seu triunfo...

As imprudencias de Marta aumentavam agora dia a dia.

Numa audacia louca, nem retinha já certos gestos de ternura a mim dirigidos, na presença do proprio Ricardo!

Todo eu tremia, mas o poeta nunca os estranhava—nunca os via; ou, se os via, era só para se rir, para os acompanhar.

Assim, uma tarde de verão, lanchavamos no terraço, quando Marta de subito—num gesto que, em verdade, se poderia tomar por uma simples brincadeira agarotada—me mandou beijá-la na fronte, em castigo de qualquer coisa que eu lhe dissera.

Hesitei, fiz-me muito vermelho; mas como Ricardo insistisse, curvei-me trémulo de medo, estendi os labios mal os pousando na péle...

E Marta:

—Que beijo tão desengraçado! Parece impossivel que ainda não saiba dar um beijo... Não tem vergonha? Anda, Ricardo, ensina-o tu...

Rindo, o meu amigo ergueu se, avançou para mim ... tomou-me o rosto ... beijou-me...