As minhas entrevistas amorosas com Marta, realisavam-se sempre em minha casa, á tarde.

Com efeito ela nunca se me quisera entregar em sua casa. Em sua casa apenas me dava os labios a morder e consentia vicios prateados.

Eu admirava-me até muito da facilidade evidente que ela tinha em se encontrar comigo todas as tardes á mesma hora, em se demorar largo tempo.

Uma vez recomendei-lhe prudencia. Ela riu. Pedi-lhe explicações: como não eram estranhadas as suas longas ausencias, como me chegava sempre tranquila, caminhando pelas ruas desensombradamente, nunca se preocupando com as horas... E ela então soltou uma gargalhada, mordeu-me a bôca ... fugiu...

Nunca mais a interroguei sobre tal assunto. Seria mau gosto insistir.

Entretanto fôra mais um segredo que se viera juntar á minha obsessão, a excitá-la...

De resto, as imprudencias de Marta não conheciam limites.

Em sua casa beijava-me com as portas todas abertas, sem se lembrar de que qualquer criado nos poderia descobrir—ou mesmo o proprio Ricardo, que muitas vezes, de subito, saía do seu gabinete de trabalho. Sim, ela nunca tinha desses receios. Era como se tal nos não podesse acontecer—tal como se nós nos não beijássemos...

Aliás, se havia alguem bem confiante, era o poeta. Bastava olhá-lo para logo se ver que nenhuma preocupação o torturava. Nunca o vira tão satisfeito, tão bem disposto.

Um vago ar de tristeza, de amargura, que após o seu casamento ainda de vez em quando o anuviava, esse mesmo desaparecera hoje por completo—como se, com o decorrer dos dias, ele já tivesse esquecido o acontecimento cuja lembrança lhe suscitava aquela ligeira nuvem.