Ora, por esta epoca, eu encontrei-me por vezes de subito a tratar o meu amigo por tu. E quando o fazia, logo me emendava, corando como se viesse de praticar uma imprudencia. E isto repetia-se tão amiudadamente que o poeta uma noite me observou com a maior naturalidade:
—Homem, escusas de ficar todo atrapalhado, titubiante, vermelho como uma malagueta, quando te enganas e me tratas por tu. Isso é ridiculo entre nós. E olha, fica combinado: de hoje em diante acabou-se o «você». Viva o «tu»! É muito mais natural...
E assim se fez. Contudo, nos primeiros dias, eu não soube retrair um certo embaraço ao empregar o novo tratamento—tratamento que me fôra permitido.
Ricardo, virando-se para Marta, mais de uma vez me troçou, dizendo-lhe:
—Este Lucio sempre tem cada exquisitice... Não vês? Parece uma noiva liria!... uma pombinha sem fél... Que marócas!...
Entretanto este meu embaraço tinha um motivo—complicado motivo esse, por sinal:
Nas nossas entrevistas intimas, nos nossos amplexos, eu e Marta tratavamo-nos por tu.
Ora, sabendo-me muito distraído, eu receava que alguma vez, em frente de Ricardo, me enganasse e a fosse tratar assim.
Este receio converteu-se por ultimo numa ideia fixa, e por isso mesmo, por esse excesso de atenção, comecei um dia a ter subitos descuidos. Porêm, dessas vezes, eu encontrava-me sempre a tratar por tu, não Marta, Ricardo.
E embora depois tivessemos assentado usar esse tratamento, o meu embaraço continuou durante alguns dias como se ingenuamente, confiadamente, Ricardo houvesse exigido que eu e a sua companheira nos tratassemos por tu.