Mas este novo periodo de calma bem pouco durou. Em face do misterio não se pode ser calmo—e eu depressa me lembrei de que ainda não sabia coisa alguma dessa mulher que todas as tardes emmaranhava.

Nas suas conversas mais intimas, nos seus amplexos mais doidos, ela era sempre a mesma esfinge. Nem uma vez se abrira comigo numa confidencia—e continuava a ser a que não tinha uma recordação.

Depois, olhando melhor, nem era só do seu passado que eu ignorava tudo—tambem duvidava do seu presente. Que faria Marta durante as horas que não viviamos juntos? Era extraordinario! Nunca me falara delas; nem para me contar o mais pequenino episodio—qualquer desses episodios futeis que todas as mulheres, que todos nós nos apressamos a narrar, narramos maquinalmente, ainda os mais reservados... Sim, em verdade, era como se não vivesse quando estava longe de mim.

Passou-me esta ideia pelo espirito, e logo encontrei outro facto muito estranho:

Marta parecia não viver quando estava longe de mim. Pois bem, pela minha parte, quando a não tinha ao meu lado, coisa alguma me restava que, materialmente, me podesse provar a sua existencia: nem uma carta, um veu, uma flôr sêca—nem retratos, nem madeixas. Apenas o seu perfume, que ela deixava penetrante no meu leito, que sempre bailava subtil em minha volta. Mas um perfume é uma irrealidade. Por isso, como outróra, descia-me a mesma ansia de a ver, de a ter junto de mim para estar bem certo de que, pelo menos, ela existia.

Evocando-a, nunca a lograra entrever. As suas feições escapavam-me como nos fogem as das personagens dos sonhos. E, ás vezes, querendo-as recordar por força, as unicas que conseguia suscitar em imagem, eram as de Ricardo. Decerto por ser o artista quem vivia mais perto dela.

Ah! bem forte, sem duvida, o meu espirito, para resistir ao turbilhão que o silvava...

(Entre parenteses observe-se, porêm, que estas obsessões reais que descrevo nunca foram continuas no meu espirito. Durante semanas desapareciam por completo e, mesmo nos periodos em que me varavam, tinham fluxos e refluxos).

Juntamente com o que deixo exposto, e era o mais frisante das minhas torturas, outras pequeninas coisas, traiçoeiras ninharias, me vinham fustigar. Coloca-se até aqui um episodio curioso que, embora sem grande importancia, é conveniente referir:

Apesar de grandes amigos e de intimos amigos, eu e Ricardo não nos tratavamos por tu, devido com certeza á nossa intimidade ter principiado relativamente tarde—não sermos companheiros de infancia. De resto, nunca sequer atentaramos no facto.