O certo é que ao possui-la eu era todo medo—medo inquieto e agonia: agonia de ascensão, medo raiado de asul; emtanto morte e pavor.

Longe dela, recordando os nossos espasmos, vinham-me de subito incompreensiveis nauseas. Longe dela?... Mesmo até no momento dourado da posse essas repugnancias me nasciam a alastrarem-me, não a resumirem-me, a enclavinharem-me os extases arfados; e—cumulo da singularidade—essas repugnancias eu não sabia, mas adivinhava, serem apenas repugnancias fisicas.

Sim, ao esvaí-la, ao lembrar-me de a ter esvaído, subia-me sempre um alem-gosto a doença, a monstruosidade, como se possuira uma criança, um ser doutra especie ou um cadaver...

Ah! e o seu corpo era um triunfo; o seu corpo glorioso ... o seu corpo bebedo de carne—aromatico e lustral, evidente ... salutar...

As lutas em que eu hoje tinha de me debater para que ela não suspeitasse as minhas repugnancias, repugnancias que—já disse e acentuo—apenas vinham contorcer os meus desejos, aumentá-los...

Elançava-me agora sobre o seu corpo nu, como quem se arremessasse a um abismo encapelado de sombras, tilintante de fogo e gumes de punhais—ou como quem bebesse um veneno subtil de maldição eterna, por uma taça d'ouro, heraldica, ancestral...

Cheguei a recear-me, não a fosse um dia estrangular—e o meu cerebro, por vezes de misticismos incoerentes, logo pensou, num rodopio, se essa mulher fantastica não seria antes um demonio: o demonio da minha expiação, noutra vida a que eu já houvesse baixado.

E as tardes iam passando...

Por mais que diligenciasse referir toda a minha tortura á nossa mentira, ao nosso crime—não me lograva enganar. Coisa alguma eu lastimava; não podia ter remorsos... Tudo aquilo era quimera!

Volvido tempo, porêm, á força de as querer descer, de tanto meditar nestas estranhezas, como que emfim me adaptei a elas. E a tranquilidade regressou-me.