Caminhava sempre aturdido do seu encanto—do meu triunfo. Eu tinha-a! Eu tinha-a!... E erguia-se tão longe o meu entusiasmo, era tamanha a minha ansia que ás vezes—como os amorosos baratos escrevem nas suas cartas romanescas e patetas—eu não podia crer na minha gloria, chegava a recear que tudo aquilo fosse apenas um sonho.
A minha convivencia com Ricardo seguia sempre a mesma, e o meu afecto. Nem me arrependia, nem me condenava. De resto, antevendo-me em todas as situações, já anteriormente me suposera nas minhas circunstancias actuais, adquirindo a certeza de que seria assim.
Com efeito, segundo o meu sentir, eu não prejudicava o meu amigo em coisa alguma, não lhe fazia doer—êle não descera coisa alguma na minha estima.
Nunca tive a noção convencional de certas ofensas, de certos escrupulos. De nenhum modo procedia pois contra êle; transpondo-me, não me sabia indignar com o que lhe tinha feito.
Aliás, ainda que o meu procedimento fosse na verdade um crime, eu não praticava esse crime por mal, criminosamente. Eis pelo que me era impossivel ter remorsos.
Se lhe mentia—estimava-o entretanto com o mesmo afecto. Mentir não é menos querer.
Porêm—coisa estranha—este amor pleno, este amor sem remorsos; eu vibrava-o insatisfeito, dolorosamente. Fazia-me sofrer muito, muito. Mas porquê, meu Deus? Cruel enigma...
Amava-a, e ela queria-me tambem decerto ... dava-se-me toda em luz... Que me faltava?...
Não tinha subitos caprichos, recusas subitas, como as outras amantes. Nem me fugia, nem me torturava... Que me doía então?
Misterio...